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segunda-feira, 5 de março de 2012

Coluna do Aquiles, o CD grupo 5 a seco


5 a seco, um fenômeno

        São cinco jovens, Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinicius Calderoni. Violonistas, além de se revezarem no baixo, na bateria e na percussão, suas primeiras apresentações foram restritas. Mas suas músicas e shows foram parar nas redes sociais. Deu-se o estouro. Saíram das pequenas salas, destinadas aos iniciantes, e ganharam as grandes, privilégio dos consagrados. Impulsionados pelo energético boca a boca, consagraram-se como fenômeno musical.
        Vários predicados permitem o feito: muito ensaio e afinação, improvisar, vocalizar, compor, cantar bem e uma exuberante presença de palco, o que os torna modelos de cobiça para moças e ideais de genro para pais.
        O 5 a seco faz o novo sem precisar apregoar. Carregam em si a marca jovial dos que arriscam. São modernos porque assim são no dia a dia. Vestidos como qualquer jovem da idade deles, parecem-se com eles. Trabalham como se brincassem. Divertem-se enquanto realizam o sonho de serem artistas.
        Acostumados desde pequenos a ouvir boa música, trataram de mixar os sons da infância ao repertório que surgia à frente deles na medida em que cresciam e iam à luta. Suas composições refletem esse universo, e cada um trouxe o seu para o grupo. Letras de poética simples, harmonias e levadas suingadas, que embutem o que escutavam ontem e o que ouvem hoje, fazem suas músicas denotarem a certeza sublime de que a música brasileira, graças a músicos como eles, revigora-se sempre mais.
        Dando continuidade ao pouco tempo de carreira desse grupo paulistano, acaba de ser lançado o DVD 5 a seco  ao vivo no Auditório Ibirapuera (Euforia Produções), que traz um making off do qual participam Dani Black e Ivan Lins, e um CD. Bem cuidado pelo diretor Rafael Gomes, o trabalho tem competente iluminação de Silvestre Jr. e Carol Autran, além de uma cenografia criativa, que inclui diversos varais de metal, daqueles onde se prendem roupas para secar. Em dois desses, no centro do palco, penduram-se os violões, baixos e guitarras; vários outros, na vertical, além de contribuírem para iluminar a cena, parecem-se com pentagramas, posto que lâmpadas pequenas e arredondadas distribuídas entre as hastes sugerem notas semibreves. Belo efeito visual. Sem intromissões, as câmeras circundam o palco, expondo o que sentem os meninos músicos.
        Lotada, a platéia sacode com a apresentação de cada música, tanto quando os cinco estão juntos quanto quando se dividem em duplas ou em trios. A alegria voa solta. A gargalhada vem fácil. O aplauso, generoso. À entrada de cada um dos convidados especiais, Maria Gadú, Lenine e Chico César, o teatro pega fogo. E eles arrasam, com interpretações convincentes, e dão ao show um acréscimo de combustível digno dos anfitriões.
        De resto, os dois Pedros, mais o Tó, o Vinicius e o Leo se mostram artistas prontos. Ainda têm muito a aprender, é claro, mas se hoje já são o que são, crescendo eles serão mais um gigante na música popular brasileira.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

PS. Descanse em paz, grande Peri Ribeiro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Coluna do Aquiles, o CD instrumental do Quintal Brasileiro


Linha de montagem sonora

        Adriana Holtz toca violoncelo na Orquestra Sinfônica de São Paulo, Ney Vasconcelos, contrabaixista, também é da OSESP, Emerson De Biaggi toca viola na Orquestra da Universidade de Campinas, onde o violinista Esdras Rodrigues também toca, enquanto Luiz Amato toca violino e é professor na Universidade Estadual Paulista.
        Cinco músicos sinfônicos, talentos que também se interessam por música popular, cabeças que se dispõem a revelar o quanto a diferenciação entre uma e outra é restritiva e, por isso mesmo, indesejável. Juntos, decidiram criar o quinteto de cordas (viola, violoncelo dois violinos, e contrabaixo) Quintal Brasileiro – sem preconceito, buscando tocar o que lhe soa como música de qualidade, que mereça ser tocada e ouvida.
        Cinco professores tirando de seus instrumentos o que de melhor podem dar: afinação impecável, pegada certa na hora exata, dinâmica precisa no momento adequado e riqueza na variação do fraseado e das divisões.
        Ao gravar Vibrações (Tratore), seu segundo disco, o Quintal decidiu fundar o que poderia ser chamado de fábrica sonora. Como operários de uma linha de montagem, diligenciaram tocar o que diversos maestros convidados escreveram para eles e seus instrumentos.
        No disco está registrada a concepção musical de seis arranjadores. Luca Raele, por exemplo, transformou o Hino Nacional numa peça sinfônica, na qual pontos e contrapontos passam dos violinos para a viola e desta para o violoncelo, indo ao contrabaixo e voltando novamente a cada um para solos e improvisos.
        “Nítido e Obscuro” (Guinga) destaca o clarinete e o arranjo de Paulo Sérgio Santos, outro a vestir o macacão de operário da oficina de montagem do Quintal. A adaptação do arranjo para cordas é de Luiz Amato, que saboreia misturar intenções sem que se percam as suas origens, a fim de soarem como de fato nasceram para ser: boa música.
        “Vibrações”, clássico de Jacob do Bandolim, conta também com dois chorões/oficineiros da pesada, os irmãos Izaías Bueno de Almeida (bandolim) e Israel Bueno de Almeida (violão de sete cordas), que tocam o arranjo de Mário Záccaro como se estivessem à luz de vela numa roda de choro. As cordas tocam em pizzicato e a eles se juntam na plangente melodia jacobiana, que depois de idas e vindas harmônicas ralenta e vai ao final.
        “Choro Negro”, de Paulinho da Viola, foi revisitada por Nelson Ayres com um arranjo supimpa, enquanto “Someday My Prince Will Come” (Frank Churchill), belo tema do filme Branca de Neve e os Sete Anões, teve arranjo de Luiz Amato – ele que também fez o da “Embolada” dasBachianas Brasileiras Nº 1, de Villa-Lobos, que fecha o bom Vibrações.
        Ao se mostrar capaz de servir a experimentações, dispondo-se a se entregar de mãos e alma aos arranjos concebidos pelos maestros convidados, o Quintal Brasileiro enaltece seu desprendimento e torna-se exemplo de que somando a música popular à erudita, recriando irrestritas belezas na diversidade, seguirá virtuoso.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Coluna do Aquiles, o CD de Mariana Leporace


Mergulho pro fundo

 A música vive hoje o momento das vozes femininas. A sensação que se tem é que a cada dia surge outra moça que canta tão bem quanto a que ouvimos há uma semana. As cantoras se valem de seu arsenal de talento e buscam ampliá-lo por meio da busca do lugar incomum, da trilha ainda a ser aberta. Com atilamento feminino, movidas a música, vão à vida. Cantam temores. Demonstram fortalezas... Mulheres músicas, dignas de suas vozes que hão de distingui-las uma das outras. 
Escrevi este parágrafo ao comentar o CD anterior de Marianna Leporace – ela que agora lança Interior (Mills Records), de onde a água emerge como tema central, como um apelo para que ela conduza ao redescobrimento do desconhecido.
Assim, cada canção deixa no ar o cheiro da maresia, o frescor da brisa matutina. É como se cada verso captasse a tensão do vento terral que sopra suave nas noites quentes, trazendo fogo e paixão à vida e ao ventre.
No disco, Mariana é sereia perscrutando mistérios, e os instrumentistas, marinheiros enfeitiçados pelo seu canto, unidos na busca. Percebendo os rituais que se descortinam no horizonte, deixando-se banhar na espuma do fundo das marés, entregam-se à música na esperança de que respostas venham à tona.
Interior teve direção, produção musical, programações, edição e mixagem a cargo de Paulo Brandão e Emerson Mardhine, assim como deles é a maioria dos arranjos. Um bom trabalho que resulta em alto poder de empatia com quem o escuta.
 “Ar e Vendaval” (Yuri Popoff e Alexandre Lemos). Os tambores ressoam nas mãos dos meninos d’A Parede. Alabês arretados trazem as cordas para a fuzarca. Em meio à folia, Mariana flui serena.
“Gandaia das Ondas” e “Pedra e Areia” (Lenine e Dudu Falcão). Unidas numa só faixa, têm belo arranjo vocal de Mauro Perelmann cantado pelo trio Folia de 3 (Mariana Leporace, Eliane Tassis e Cacala Carvalho).
“Carrossel” (Emerson Mardhine e Alexandre Lemos). Apenas uma clarineta (Andy Connell) e um violão (Emerson Mardhine) bastam para amplificar a quietude da melodia. Mariana desvela sua intenção em graves e agudos bem colocados.
“Água, Mãe e Água” (João Bosco). A percussão (Murilo O’Reilly) impacta. O baixo (Paulo Brandão) pontifica. Mariana faz duo com ela mesma, arrasa. Convidado a cantar, João Bosco demonstra suas qualidades de cantor diferenciado, brilha.
“Sereia e Marinheiro” (Emerson Mardhine e Etel Frota). Com arranjo de Marcos Alves, o acompanhamento do quarteto de violões Maogani dá força à melodia e sabor aos versos. Como uma irresistível sereia, Mariana canta suave.
“Perdido no Meio das Ondas” (Daniel Gonzaga). O sax (Andy Connell) reforça as notas. A percussão e as programações refletem o brilho das águas navegadas por Mariana e sua voz.
Ao final, “Vento Bravo”, clássico de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro. Numa levada diferente da criada por Edu, o arranjo imprime ainda maior ansiedade à música. Ótimo!
Em Interior, Mariana usa a voz para navegar na ousadia de se revelar.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

PS. Lá se foi mais um colega. Descanse em paz, Wando.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Coluna do Aquiles, o CD de Ladston do Nascimento, cantor e compositor mineiro


A maturidade incontestável de um compositor e cantor
           

Desde o lançamento do LP Vida e dos CDs Anjim Barroco Simbora, João! até Lugarzim(Fina Flor), já lá se vão mais de vinte anos da carreira de Ladston do Nascimento.
           Com esse trabalho, o compositor, cantor e violonista belo-horizontino chegou a um estágio em que sua competência está à flor da pele, apta a atingir o momento da plenitude, a integridade tão desejada pelo músico quanto pelo seu público, todos ansiando pelo instante que definirá a ultrapassagem de ser visto apenas como uma grande promessa para a percepção de que ele chegou ao ponto só alcançado pelos bambas.
           À concretude: Ladston do Nascimento realizou seu rito de passagem. Amadurado, cantor de espantosos recursos vocais, artista que percebe como poucos o sentido da mineirice que corre nas veias de sua gente, transformando-a em canções que a representa e identifica, fez-se o grande compositor e cantor que muitos apostavam que haveria de ser. 
           Produzido por Jota Souza (que também toca piano e vibrafone, além de ser o arranjador de quatro faixas), o CD tem outros arranjadores igualmente experientes: o próprio Ladston (que também toca violão), Francis Hime e Túlio Mourão (os dois também tocam piano). Conta igualmente com uma faixa em que Ladston é o autor da música e da letra, além de parcerias suas com outros letristas/poetas: Antônio Martins, Fernando Brant e Tadeu Franco.
           A fim de dar vida às músicas e prepará-las para que Ladston as cantasse com sua voz de pássaro das noites de luar mineiras, grandes instrumentistas foram chamados: a bateria e a percussão de Robertinho Silva, os violões de Daniel Santiago e de Marco Pereira, as flautas de Andrea Ernest e de Dirceu Leite, o trompete de Altair Martins, os baixos de Guto Wirtti, André Vasconcellos e Pedro Aune, o cello de Iura Ranevsky, o piano de David Feldman, a clarineta de Pedro Paes e o vibrafone de Gabriel Guenther.
           Quem ouve Ladston do Nascimento cantar pela primeira vez espanta-se: ele canta como Milton Nascimento cantou quando subiu no palco do Maracanãzinho para defender “Travessia”, dele e Fernando Brant, em 1967. A voz de Ladston é igualmente límpida em sua agudeza, e seu sentimento transborda em delicadezas que impregnam as notas sem, entretanto, se afastar uma coma sequer da afinação.
           O álbum começa com “O circo do Miudinho” (Ladston e Antônio Martins). A introdução, cantada por coro misto, arrepia pela energia que transmite e também por trazer à mente outro coro, o de “Sentinela” (Milton e Fernando Brant). A percussão de Robertinho e o dedilhado do piano de Túlio Mourão dão ainda mais tensão ao canto. Ladston brilha densamente
           Outras faixas vêm plenas de unidade e de deferência à música das Minas Gerais. Canções tributos de um craque à sua terra e aos conterrâneos que o antecederam musicalmente.
           Em Lugarzim, a música de Gladston do Nascimento brilha como o reflexo do minério faísca pelas estradas e caminhos de todos os mineiros.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Coluna do Aquiles, o CD instrumental de João Parahiba


A locomotiva rítmica do samba-jazz

           João Parahyba é um dos maiores bateristas brasileiros. Seu DNA rítmico nasceu da forma como tocava timba. Isso quando ele integrou o Trio Mocotó, junto com Fritz Escovão e Nereu Gargalho, nos anos 1960: três sambistas que, sem perder de vista o jazz e o rock, proporcionaram novos ares ao nosso velho e bom ritmo.
           Ao se desligar do trio, em 1973, João parecia ter também desencanado da música. Nada disso. Sete anos depois ele estava de volta. Suas baquetas seguiam tão surpreendentes como antes. Sua veia de misturador de gêneros fervia mais do que sempre: samba-rock, samba-jazz, samba, rock, jazz, tudo junto e misturado a um só tempo, o suingue de cada um desses gêneros brotando aos borbotões.
           Em 2000, ao retomar o trabalho com o Trio Mocotó, Parahyba aqueceu as mãos e retomou o gosto pelas coisas das batidas diferentes, até que, anos mais tarde (2009), convidou Beto Bertrami (pianista), Rudy Arnaut (guitarrista), Giba Pinto (contrabaixista), Ubaldo Versolatto (saxofonista e clarinetista) e Janja Gomes (reprocessamento e samples) e com eles formou o João Parahyba Sexteto, que lançou o CD O samba no balanço do jazz (selo Sesc SP).
           Para tocar temas que marcaram a música brasileira instrumental dos anos 1930, como “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, e dos anos 1960, como “Nanã” (Moacir Santos), “Sambou, Sambou” (João Donato), “Batida Diferente” e “Estamos Aí” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira), o sexteto de João Parahyba convidou outros grandes instrumentistas: Tiago Costa (pianista e arranjador), Clayber de Souza (gaitista), Nailor Proveta (clarinetista), Teco Cardoso (saxofonista e flautista), Marcelo Mariano (baixista) e Rodrigo Lessa (bandolinista). A esse repertório se somaram três composições do próprio João Parahyba, uma de Laércio de Freitas (cujo arranjo é do próprio Laércio), outra de Gilberto Pinto, outra de Janja Gomes, outra de Amilton Godoy (cujo arranjo é do próprio Godoy), outra de Rodrigo Lessa e Eduardo Neves e uma de Marcos Romera.
 Para realçar suas interpretações, os instrumentistas se revezam em meio a saborosos improvisos jazzísticos, aprazem-se com as requintadas melodias e vez por outra se juntam para sonorizar o conceito que se traduz na tal mistura do chiclete com banana apregoada por Jackson do Pandeiro: harmonia de gêneros musicais universais e complementares (sem antagonismos e posturas xenófobas) da cintura brasileira. O resultado dessa união de genialidades é um samba elevado à máxima potência.  
          Em cada faixa tem-se a forte presença da bateria de João, que toca como um trem que, com suas rodas unidas a dois eixos que vão e vem, soa a batida ideal para a levada do ritmo. Os outros instrumentos viajam juntos na fantasia.
          Xique-xique-tic-tic-xique-xique-tic-tic, vai o trem abrindo caminho, com João Parahyba e seu talento inconteste à frente, avivando o som musical da alegoria. O trenzinho segue delirante... O samba-jazz está com ele.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Rafael Altério


Milagreiros, graças a Deus

        “Elegbá veio, sou eu, elegbá, laroê/ Com Zumbi que veio de elegbá/ Pode tu, Zumbi Bará, pode ir/ Pode ir lá/ Que teu povo veio chamar”, versos de “Zumbi Bará” (Rafael Altério e Paulo César Pinheiro). Assim canta Rafael Altério, abrindo seu CD Santo de Casa (independente, com patrocínios). Aceitando o chamamento, levou consigo sua brasilidade e seus santos de casa: amigos de fé, músicos de boa cepa, todos integrados no papel de solidificar a mistura da sonoridade harmônica com o fervor rítmico, resultando em música de brasileira qualidade.
        Para tanto, contribuem os arranjos – a maioria de Rafael Altério (a direção artística é dele e de Celso Viáfora) – e as percussões, principalmente quando estão nas mãos de Kleber Benigno (Paturi), Márcio Jardim e Nazaco Gomes, os meninos paraenses do Trio Manari. Aos tambores amazônicos se juntam as teclas dos pianos (Paulo Calazans, Breno Ruiz e Rafael Altério), o acordeom (Breno Ruiz), a bateria (Gabriel Altério), a flauta (Teco Cardoso), as cordas dos violões (Luiz Ribeiro, Dani Black, Pedro Altério, Dani Altman e Rafael Altério), o baixo (Marcelo Mariano), a guitarra (Léo Amuedo e Dani Black) e o cello (Mariza Silveira). Toda essa gama infinita de sons vigorosos dá a Rafael o direito de impor com dignidade o seu vozeirão – sua voz tem o seu tamanho. Cercado de amigos, desde os instrumentistas até o coro feminino, ele não poderia deixar de também trazer para perto de si os parceiros letristas, Paulo César Pinheiro, Celso Viáfora, Joãozinho Gomes, Breno Ruiz e Rita (esposa) e Pedro Altério (filho). Todos santos da casa dos Altério, milagreiros, graças a Deus.
        Ao ouvir as onze faixas do CD, entende-se perfeitamente o que Rafael quer com a música e o que ele ambiciona alcançar com ela: para Altério, música é missão cultural. Sabedor de tamanha exigência para consigo próprio e para com sua obra, trata de criá-la como quem concebe um filho.
        A pegada da pele dos tambores está presente em quase todas as faixas. Com o balanço comendo solto, impossível aquietar o esqueleto. E segue o som, até que chega um momento de calmaria: André Mehmari tocando ora piano acústico, ora acordeom, e Rafael cantando, dele e Rita, “Flor de Rio”.
        Logo a seguir, “Quando o Galo Cantar”, também dos dois. Os tambores do Manari e a flauta pontuam o início do canto. O pandeiro (Douglas Alonso) tem vez e segue até que o violão de aço, a bateria e o baixo, este com uma puxada de intensa pujança, juntem seu som à voz. A caixa da bateria conduz agora. O coro feminino reforça. O violão e a flauta fazem breve intermezzo. A melodia volta com Rafael e o coro... Meu Deus!       
        É a hora do sincretismo musical/religioso/afetuoso de Altério se despedir. E ele canta a letra de Joãozinho Gomes para “Camarada de Ogã”: “Vou pela manhã, tô indo agora/ O dia raiou fora de hora/ Vai junto de mim/ São Sebastião crivado/ São Bartolomeu irá ao meu lado”.
        A casa dos santos de Rafael Altério está aberta.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Luiz Millan - Tocando nas nuvens


Tocando nas nuvens

        Entre Nuvens (independente) é o primeiro disco de Luiz Millan. Bom compositor, letrista inspirado, o trabalho é um belo cartão de visita. A partir dele, sua passagem pela grande porta da música brasileira de qualidade se mostra real.
        Michel Freidenson (arranjador e diretor musical) deu ao seu teclado e às flautas de Léa Freire (com direito a saboroso fraseado da flauta baixo) a responsabilidade de começar “E o Palhaço Chorou” (Mozar Terra e Luiz Millan), música que abre os trabalhos. Junto com eles vão os violinos de Luiz Amato e Esdras Rodrigues, a viola de Emerson De Biaggi e o violoncelo de Adriana Holtz. O som resultante cria a beleza que deságua no doce cantar de Ana Lee. O chorinho de boa cepa segue brejeiro. O teclado toca notas de suave requinte. A cortina do naipe de cordas deságua na amplidão da boa música. Afinada que só ela, Ana Lee dá à melodia o valor que enriquece os versos de Millan e a harmonia de Mozar.
        “A minha máquina escreve letras sem pudor/ E frases perdidas entre a metafísica e o amor”, versos de “Montparnasse” (Plínio Cutait e Luiz Millan), traduzem o objetivo poético de Millan. Para cantá-los, Consiglia Latorre... Deus do céu! O que é a voz dela? Agudos límpidos, emoção à flor da pele, respiração impecável... O acordeom (Toninho Ferragucci) e o piano iniciam a canção quase frágil, tamanha é sua delicadeza. O acordeom se destaca. O violão toca a harmonia, porém se faz protagonista num breve dedilhar de notas uníssonas com o canto. O intermezzo de acordeom e violão, com o piano a fazer-lhes cama, é especial.
        Ana Lee inicia “Mito” (Luiz Millan e Ivan Miziara), uma das quatro músicas do CD para as quais Luiz Millan criou a melodia, não os versos. Mais uma vez, o arranjo de Freidenson usou cordas e teclado, além de baixo (Sylvinho Mazzucca), cuja pegada reforça a levada sem tirar-lhe a suavidade, e bateria (Alex Duarte), que se vale dos pratos para acentuar a força dos versos, sem, no entanto, encobri-los. Tudo isso encarrega-se de vestir uma das mais belas canções do CD. Canção que parece feita para a voz de Ana Lee, pois, ao cantá-la, transforma-a numa ode à paixão. O intermezzo de teclado e cordas é belo em sua fortaleza. Ao retomar o canto, Ana Lee delicia-se com palavras: “Tens esta partitura/ Nas vértebras finas/ Tua música pura/ Rima íntima”.
        “Outono” (Luiz Millan e Michel Freidenson), um dos dois temas instrumentais do CD, tem no sax soprano de Teco Cardoso o ponto de partida. O teclado o acompanha. As cordas também. Mais um belo arranjo de Michel. O acordeom de Ferragucci chega para aumentar a temperatura e o prazer de fazer da música fonte de deleite estético.
        Instrumentistas, cantoras, compositores, arranjadores, um grupo coeso que só ratifica a excelência musical, instrumental, vocal e poética de um trabalho que abre a possibilidade de mais um compositor se juntar ao time dos que fazem da música brasileira a mais rica e diversificada do mundo: Luiz Millan.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Sérgio Sampaio


O bloco volta à rua

        O LP Sinceramente, de Sérgio Sampaio, lançado de forma independente em 1973, está de volta à praça. Se por acaso você, leitor, acha que nunca ouviu falar de Sérgio Sampaio, tente cantarolar este refrão: “Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender”. Lembrou? Pois é... Sérgio Sampaio arrasou nesse baita sucesso.
        Logo após o estouro nas vendas do compacto que continha “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, apresentada no VII Festival Internacional da Canção da TV Globo (1972), e não conseguindo igual êxito comercial nos três LPs que vieram a seguir, Sampaio foi tachado pela indústria fonográfica de “artista difícil” e pela mídia de “autor maldito”.
        Seu primeiro LP (1973) tem como título o mega hit Eu quero é botar meu bloco na rua. Em 1976 veio o segundo: Tem que acontecer. E, relançado agora em CD, Sinceramente (1982) foi seu terceiro e último long play solo. Com onze músicas suas, sendo uma (“Cabra Cega”) em parceria com Sérgio Natureza, Sampaio abriu o peito e demonstrou o quanto sua alma estava dilacerada. Os tempos andavam bicudos...
        Contando com a participação talentosa de Renato Piau (pianista e parceiro de Sérgio Sampaio desde sempre), Zezinho Moura (piano elétrico), Ricardo Feijão (baixo), Charles Chalegre (bateria), Oberdam Magalhães (sax e flauta), Luciano (arp strings), Serginho Boré (percussão) e com o violão acústico de Sérgio Sampaio, Sinceramente (Saravá Discos) se revela um CD bem remasterizado, cujo som tem brilho e profundidade.
        Além de samba, boleros e canções, o álbum tem baladas que despretensiosamente namoram o brega, sem, contudo, permitir que se lhes pespeguem tal adjetivo. Pois elas lembram, na verdade, a pujança transformadora das baladas que Raulzito tão bem difundiu e Sérgio adotou.
         “Essa Tal de Mentira” é uma canção na qual a boa voz de Sampaio é embalada pelo som dos violões (um improvisa, enquanto o outro harmoniza) e do baixo. Os versos ecoam seus sentimentos: “Com a alma partida/ Dando com o corpo nas grades da cela da vida/ Como num mar de paixão/ Náufrago que estende a mão/ Agarro o meu violão/ E canto uma canção”.
        Luiz Melodia divide o canto com Sérgio no samba “Doce Melodia”, homenagem de Sampaio a Luiz Melodia. Divertidos e cheios de ginga, os dois se esbaldam e esbanjam malandragem.
        O violão começa “Nem Assim”. A voz de Sérgio vem firme, entoando as dores da separação, mas tudo com muito bom humor.
        Em “Sinceramente”, a música que dá título ao disco, os violões acompanham a voz que vai aos agudos para cantar notas da melodia. Os versos são um louvor à independência, no sentido mais amplo do termo: “Não há nada mais tranquilo/ Do que ser o que se sente/ E poder amar, perder, chorar/ Depois ganhar/ Assim sinceramente”.
        Vítima de pancreatite, Sérgio Sampaio nos deixou em 15 de maio de 1994. Mais um dos grandes compositores que a música brasileira perdeu para o alcoolismo. Pena.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Patrícia Ahmaral


O poder de uma cantora

        Depois de lançar dois discos, a cantora e compositora mineira Patrícia Ahmaral volta à cena comSuperpoder (gravado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, com o patrocínio da Vivo).
        Produzido pelo contrabaixista Fernando Nunes, também arranjador das treze músicas do álbum (em duas delas dividindo o trabalho com outros três arranjadores), contando com participações especiais de Lucinha Turnbull (em “Trilha de Luz”, da própria Lucinha) e de Chico César (em “Sorry, Baby”, uma das três músicas de Patrícia presentes no disco), tendo no repertório desde Alceu Valença, Lula Queiroga (autor da faixa-título) e Belchior até Zeca Baleiro, Caetano Veloso e Torquato Neto, passando por Totonho, Vander Lee (presente com duas músicas – uma delas, “Revoada”, em parceria com Ahmaral), Paulo César Barros, Getúlio Cortes, Carlos Tê e Hélder Gonçalves, Superpoder justifica o título: Patrícia é poderosa.
        Seu poder maior advém da força do seu cantar. Levando as interpretações às últimas conseqüências, sem medo de se fazer intensa ou demasiada, as palavras lhe saem como petardos que miram o entusiasmo do ouvinte, trazendo-o pelo ouvido para a roda de fogo. A chama de seu canto acende o prazer de vê-la afinada, sem deslizes que pudessem comprometer o seu desempenho.
        Sua poética é forte, como mostram os versos da sua “Do Querer” e de “Sorry, Baby”, uma parceria com Chico César – que com ela divide o canto: Pelas mazelas/ Pelo medo/ Pelo soco na cara/ Pelo tapa na veia/ A navalha/ Pela noite escura/ Pela bala/ Pela infância bandida/ Pela fumaça (...)
        Os arranjos, tanto de uma quanto da outra, têm zabumba, triângulo, coquinho, caxixi, block, pandeiro árabe e ganzá nas mãos de Bruno Santos. Têm ainda, a bateria de Luís Patrício e o pandeiro e a cuíca de Guilherme Kastrup, tudo ajuntado ao acordeon (Tatá Sympa), ao violão de náilon (Fernando Nunes), ao violino (Júnior Gaiatto), ao violão e ao banjo (Tuco Marcondes). A mistura confere à pisada riqueza surgida no calor e na fortaleza da cultura musical do Nordeste, com tempero das Gerais, coisa que o ouvinte num instantinho sacará, ainda que jamais tenha posto os pés naquelas terras nem os seus ouvidos nunca tenham sentido a sua plenitude.
        Para melhor avaliar uma cantora a quem nunca ouvimos antes, nada melhor do que ver como ela se sai numa música cuja gravação marcou época. E Patrícia Ahmaral brilha em “Mamãe Coragem” (Caetano e Torquato), com direito à citação de outra canção deles, “Deus Vos Salve Esta Casa Santa” e à levada pop de rico poder de arrebatamento... Caetano adorará ouvir.
        Com arranjo calcado em guitarras, violões e bateria, tendo o baixo a segurar as pontas e os teclados soando detalhes precisos, “De Romance” (Zeca Baleiro) realça a modernidade do cantar de Patrícia, quando a fortaleza volta a dar as caras e vigora a cantora poderosa que salta no escuro sem rede de proteção, voando pelo mundo que abre os braços e a acolhe.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Mário Sève e Cecilia Stanzione


Musicalmente necessário

        Logo que recebi Canción necesaria (Núcleo Contemporâneo), CD que reúne a cantora argentina Cecilia Stanzione e o compositor, arranjador e mago dos sopros Mário Sève, chamou-me atenção o título. Antes mesmo de rodar o disco pela primeira vez, pus-me a matutar sobre o seu significado.
        Que atributos a música deve ter para se fazer necessária? Será que é o momento pelo qual passamos que a torna importante a ponto de marcar uma etapa de nossa vida? Será que é uma harmonia bem trabalhada, um verso que diz o que não conseguimos dizer ou o som de um instrumento que atiçam a nossa emoção? Ou é o timbre de uma voz que se esgueira pelos poros, indo ao nosso âmago, atingindo o que temos de mais reservado, que faz uma canção ser, de fato, necessária?
        Uma música se faz imprescindível quando nos surpreende, quando nos pega de jeito, de uma forma para a qual não estamos preparados. Necessária é a música que se faz trilha sonora de um momento, tornando-se nossa parceira vida afora. Ela é necessária quando dela nos tornamos amantes confidentes, quando só ela nos desperta o choro ou a alegria. Necessária é a canção que nos faz reféns das garras do seu encantamento.
        Canción necesaria traz onze faixas de autoria de Cecilia e Mário: “Una Milonga” tem belíssimo arranjo de Gabriel Geszti, no qual pontificam o sax tenor de Sève, o violão e o baixolão de Rene Rossano, o cello de Lui Coimbra e o piano e o acordeon de Geszti. Com um singelo desenho melódico de seis notas (por vezes trocando a nota final) tocado pelo baixolão, ora só, ora com o piano, e que se repete desde a introdução até o final, vem a voz caliente de Cecilia Stanzione. Poderosamente afinada, criativamente emocionada, enquanto lhe dá ares épicos ela reforça a dor da canção, criando atmosfera lírica e sombria ao mesmo tempo. O diálogo da voz com o acordeon é rico em interpretações várias. O piano e o cello criam um módulo sobre o qual o arranjo flui como um rio tranquilo O sax se une a eles para, com a voz de Stanzione, encerrarem. Meu Deus, eis uma canção necessária.
        O violão toca desenho de simplicidade contagiante. A voz que dá início a “Justo Ahora” é de Ney Matogrosso – a levada da canção tem a cara das músicas em que Ney mais brilha, e ele não nega fogo. A puxada do baixolão carrega junto o sax e o violão. O arranjo de Mário Sève dá ainda mais sabor à música, ela que ganha muito mais peso quando Cecilia se junta a Ney, em preciso dueto com direito a vozes abertas. O intermezzo de sax e acordeon é papa fina. Com vocalises e o acordeon, vão ao final.
        Apenas a voz e o acordeon interpretam “Perfume de Violetas”. A simplicidade do arranjo de Gabriel Geszti permite que a voz de Cecilia ganhe profundidade. Carregando nos erres, ela se desvela em carinhosa e afinada interpretação, e seus agudos soam com a precisão de faca cortando manteiga.
        Canción necesaria é um trabalho que merece toda a atenção, pois se trata de um CD musicalmente necessário.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Coluna (reflexão) do Aquiles


Um pássaro chamado Sucesso

        Ele nasceu cego num ninho no forro de um velho teatro. Rejeitado por pais e que tais, foi abandonado para que definhasse sua solidão até que a morte viesse. A companhia teatral acompanhou o nascimento de sua plumagem e, mesmo sem compreender exatamente o que fazia ali aquele pássaro dia e noite, quase imóvel, no alto do madeirame que sustentava o cenário, aprendeu a conviver com ele. Era com se fizesse parte da montagem do espetáculo. Um ator a mais.
        O pássaro cego cresceu alimentando-se de palavra e música. Ousava voar quando se fazia o silêncio. Como um fantasma, conheceu cada canto do teatro. Deixava-se ficar por longo tempo nos camarins. As gavetas vazias, ah! Quanta magia naquela ausência de objetos. Gavetas prenhes de desejos, repletas de confidências não reveladas. Desejou morar numa delas. Sentindo o calor das luzes que emolduram o espelho, o pássaro cego tentava vislumbrar sua imagem. Em vão.
        Dia de estreia. “Lotação esgotada”, dizia a placa pendurada na bilheteria. A plateia rebuliça. A coxia treme. O pano sobe. As luzes acendem-se. O pano sobe, o espetáculo começa. Cai o pano.  Os aplausos vêm como uma chuva forte, torrencial. Imóvel, o pássaro vibra. O som das palmas entra por sua penugem e soma-se às palavras e músicas que lhe habitam o corpo.
        No proscênio o elenco agradece ao público. Acende-se um refletor em contraluz. Vislumbra-se uma sombra em silhueta. Num gesto teatral, a atriz principal olha para o alto. Todos acompanham seu movimento. Sua voz vem firme: “Pássaro que está prestes a morrer, para que tu não vás pagão eu te batizo. De hoje até tua morte inevitável e prematura, atenderás pelo nome de Sucesso.”
        Finda a temporada, novos teatros acolheriam a trupe que continuaria buscando fazer a emoção e o riso chegarem à plateia. Esta é a vida de quem vive para o teatro. Cada palavra, cada nota musical, é buscada dentro da alma e despejada sobre o espectador na esperança de vê-lo feliz.
        Pássaro espetáculo, Sucesso ama tanto o palco quanto ao ar que o sustenta em voo. Quando a cidade dorme, ele decola para sua missão: inocular o vírus do amor ao teatro nos que sonham. Movido por sua cegueira, ele “sente” quem devaneia. Em suas casas Sucesso pousa. Dá três batidas, como as de Molière, e as janelas abrem-se, como cortina do teatro.
        Iluminado na cegueira, Sucesso anuncia, em versos, os espetáculos que estão em cartaz na cidade. Envolto em panos teatrais, ele faz com que suas palavras invadam o coração daqueles que nas noites seguintes irão ao teatro. Sucesso voa, também, até a janela dos artistas que desafiam o tamanho das salas de espetáculos. Seja astro ou principiante, o pássaro invade seus corações, dando-lhes esperança e força.
        Sucesso volta ao teatro, adormece no camarim e sonha com Goethe, que recita a primeira frase de sua “Carta de Aprendizado”, escrita para o personagem Wilhelm Meister: "Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião (...)"
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
PS. Aguenta firme, Doutor Sócrates!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Antonio Adolfo


Os três mosqueteiros da música brasileira

            Guinga e Chico Buarque são compositores atemporais, suas músicas estão entre as que se perenizarão, cada vez mais, ao longo da história. Graças a seus talentos incontestes, são amados e tidos, pela grande maioria, como modelos musicais; mas são também contestados, há quem os veja como passadistas.
            O pianista e compositor Antonio Adolfo aderiu àqueles que distinguem a importância dos dois. E ao dedicar seu novo disco a uma parte de suas obras, Antonio avaliza seus talentos. Ao homenageá-los lançando Chora Baião (Antonio Adolfo Music), ele lança um novo olhar sobre eles. E para melhor assim ser, lá está sua musicalidade latente nas onze faixas do CD: cinco músicas do Guinga, sendo duas só dele e três em parcerias com Buarque, Celso Viáfora e Aldir Blanc; três do Chico e três do próprio Antonio Adolfo.
            Para realizar o trabalho, foi arregimentado um time de larga experiência e de alta qualidade: Leo Amuedo (guitarra), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria), Marcos Suzano (percussão) e Carol Saboya (vocais), além do irrepreensível piano do dono do pedaço. Ao privilegiar os ritmos que dão título ao CD (o choro e o baião – gêneros nos quais Guinga e Buarque são mestres), ele faz com que o conjunto tenha uma unidade que só faz aguçar o prazer de ouvi-lo.
            A guitarra de Amuedo é movida a concisão: os solos são exemplos do menos que é muito mais. Seuintermezzo em “Dá o Pé, Loro” (Guinga), modelo de como a técnica e a emoção podem e devem andar juntas, eleva-o a uma categoria ímpar em seu ofício.
            O baixo de Jorge Helder traz a segurança de que todo grupo carece para se fazer mais suingado e coeso. Basta ouvir “Morro Dois Irmãos” (Chico Buarque) e sacar a justeza da pegada do cara.
            A percussão de Marcos Suzano, principalmente quando ele está ao pandeiro, impregna de brasilidade até samba de roda composto e tocado por dinamarqueses (com todo o respeito a eles, claro!). Para não dizerem que minto, lá estão ele e o pandeiro, brilhantes, em “Di Menor” (Guinga e Celso Viáfora).
            A bateria de Rafael Barata soa com a precisão dos grandes bateristas. Sua leve levada nos pratos, sem deixar que o som se espalhe em demasia em “Gota D’Água” (Chico Buarque), atesta isso.
Carol Saboya participa cantando “Você, Você” (Guinga e Chico Buarque). Sua voz, de afinação cristalina, está bem avivada pelo piano paterno que a acompanha como se a levasse pela mão num passeio à beira-mar.
            E tem tudo isso e muito mais. Pule de dez, tinha tudo para dar certo um CD no qual Antonio Adolfo se dispôs a juntar seu talento ao de Chico e Guinga. Deu! Discaço! Pois, convenhamos, som contemporâneo é a melodia rica que emoldura a harmonia iluminada por versos e/ou por instrumentos; som moderno é o talento que se revitaliza a cada acorde. Modernos e contemporâneos são Chico, Guinga e Antonio, eles que estarão sempre um passo à frente da modernidade de fancaria, sempre um compasso adiante do modismo de mercado. 

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Delia Fischer


Sagração à música

A pianista, compositora, cantora e arranjadora Delia Fischer lançou Saudações Egberto (Sesc Rio). Um disco em louvor à música de Egberto Gismonti.
Privilegiando composições já conhecidas do compositor, instrumentais ou não, mas que sempre encantaram dadas suas admiráveis qualidades, Delia deu mostras de profunda sensibilidade. Seu piano e sua voz, ungidos pela tranquilidade que vem com a maturidade, acrescentam nuances outras ao repertório de um dos nossos mais instigantes músicos contemporâneos.
Compositor pleno de soluções da mais absoluta imprevisibilidade, bem que Egberto merecia ser revisitado por alguém com a disposição de repensá-lo e de dar à interpretação sua própria linguagem musical, livre de qualquer pré-conceito já cristalizado. E é exatamente isso que Delia traduz em cada uma das treze faixas escolhidas para seu álbum: um jeito só seu de fazer com que as canções de Egberto soem como o ar puro que se revigora após o temporal. Tudo isso, aliado à impecável técnica que Delia tem como pianista, dá a Saudações Egberto tamanha unidade que faz dele um disco de consistente encorpadura.
A contemporaneidade logo dá as caras com “O Sonho” (Gismonti). O arranjo é do “pirulito carijó” (quando algo era muito bom, dizia-se assim lá em Niterói). Moderno, refaz o caminho sonhado por Egberto. O teclado de Sacha Amback desconcerta, tal a sua capacidade de proporcionar ligação entre a percussão (intensa) de Naife Simões, o violino e o cellolino (com pizzicatos primorosos) de Pedro Mibielli, o baixo (seguro) de Pedro Guedes e a voz e o piano de Delia Fischer.
Segue-se “Lôro – Cor de Sol” (Gismonti e Eugenio Dale). Delicado, o violão começa. Delia inicia o canto. Seu piano se junta ao bandolim (Pedro Mibielli). A melodia de Egberto agradece o carinho. O intermezzo de piano tem a bateria em batida leve, mas firme. Ao voltar o canto, a caixa soa uma levada de maracatu. O suingue aumenta. O piano brilha; bandolim e violão também. A harmonia se mostra plena em sua concepção original, acrescida por criativas inserções.
O piano começa a versão instrumental de “Palhaço” (Gismonti e Geraldo Carneiro). A delicadeza está em cada tecla percutida por Delia. O violino e o flugelhorn (Naife Simões) criam sonoridade ímpar. Logo o violino faz belo solo. O piano o acompanha, até puxar para si o improviso. O piano sola. A sonoridade do flugel e do violino volta a protagonizar. O piano retoma, o violino se junta a ele. Volta o som do violino e do flugel... Meu Deus!
E tem ainda Egberto tocando violão de 10 cordas na sua “Saudações”; Paulinho Moska cantando com Delia “Um Outro Olhar – Pêndulo” (Gismonti e Ronaldo Bastos), ela que por sua vez vai de Fender Rhodes em “Dança das Cabeças” (Gismonti) e, só com o seu piano, canta “Auto-Retrato” (Gismonti e Geraldo Carneiro), um monumento à solidão, doce utopia.
Ao homenagear Egberto Gismonti, Delia Fischer consagra a música, faz dela um testemunho de fé no músico brasileiro.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles / Memórias, última parte


Fim de temporada no Leblon

Hoje eu acordei com a macaca; a cobra vai fumar; eu estou é com a cachorra. Para além de parecer palpite para terno de grupo no jogo do bicho, esse foi o sentimento que me assaltou quando abri os olhos.
Que manhã de sol, meu Deus! Domingo como há muito o Leblon não via. Nuvens batiam em retirada, empurradas por um final de sudoeste frio que a tudo limpa e regenera. Pulei da cama com entusiasmo quase juvenil para quem ainda carregava na memória os fatos lamentáveis do domingo anterior de sol no Leblon, após tanto tempo afastado.
Num arrepio, a cena dantesca de corpos seminus amontoados no calçadão da praia voltou a me assombrar. Nunca poderia imaginar que causaria aquele engavetamento erótico só porque, subitamente, me abaixei para amarrar o cadarço do tênis. Com pavor, revi a cena de arena de circo romano, quando ao apontar as Cagarras, acertei um direto no queixo de um lutador de jiu-jitsu que passava acompanhado do seu dogue alemão. Scud, assim chamavam o meu quase carrasco, o que quase me levou pro solo e me fez mulher, como diria o sábio-erótico Wando.
Abri os olhos disposto a esquecer qualquer desventura que pudesse macular aquele azul suave que descia à terra. Nem mesmo a lembrança incômoda daquele encontrão desajeitado que tive de aplicar num poodle, que quase o jogou no mar e me tirou o bom humor. Fomos.
Vejo que Chico Buarque caminha rapidamente em nossa direção. Pronto, pensei, mais um que vai passar batido... O cumprimento vem acompanhado de um sorriso largo. Olho para minha mulher, sua cara é de incredulidade. Sorrio como quem diz: "Viu só?"
Seguimos felizes. Estava linda a minha mulher iluminada pelo sol. Foi quando uma lufada de vento carregou-lhe o chapéu de palha molenga que a protegia. Disposto a impedir que aquilo pudesse atrapalhar nossa dia, saí desembestado atrás. Fintas, volteios, subidas bruscas, descidas em espiral, ziguezague pra cá, ziguezague pra lá e eu, já tonto, perseguindo o chapéu de palha molenga da minha mulher. Por entre os carros, dentro d’água, no meio do vôlei. Meu Deus! Estava tomando um baile do chapéu de palha da minha mulher molenga, ou melhor, do chapéu molenga da mulher de palha... Xiii!
Mas aqui já é a entrada do Túnel Rebouças? O chapéu entrou. "Táxi, siga aquele chapéu!", ordenei. Já sem fôlego, percebi que àquela altura o helicóptero da Rede Globo mandava imagens da "obstinada perseguição" para todo o Brasil.
As pessoas vaiavam a cada drible que eu levava. Surdo pelo cansaço, eu ainda conseguia ouvir sons distantes: "Esse velho vai morrer" e "Calma, coroa". Linha Vermelha, e o chapéu de palha molenga da minha mulher acabando comigo. Chego à Pavuna: Via Dutra – São Paulo a 426 quilômetros. Agora não tem mais volta, pego essa droga de chapéu nem que seja lá no Paraíso.
Pronto, estou em casa. O chapéu, amarrado ao pé da mesa, parece que ri. "Alô! Nilza, pegue a primeira ponte aérea e volte para casa, tá? Estou te esperando. Um beijo".

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles / Mais memórias

Um falso paulista na ilha do Leblon

Com o sábado acabando, fui dormir animado. Amanhã será o grande dia. Após um tempão, estou de volta ao Leblon, ilha que tem, à frente, o mar; à esquerda, o canal do Jardim de Alá; à direita, o canal da Rua Visconde de Albuquerque e atrás, a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Tentando aparentar modéstia, fui logo prevenindo minha companheira: “Olha, Nilza, não sei se teremos tranquilidade na caminhada que faremos amanhã pelo calçadão. Provavelmente a cada passo serei abordado por velhos conhecidos, alguns poucos e bons amigos que cultivei na época em que eu fui morador do Leblon. Peço-lhe um pouco de paciência e compreensão, afinal, há tempos sem passear pela praia numa manhã de domingo, terei que atender a todos”. Dito isso, apaguei a luz e não dormi. Como dormir imaginando a cena gloriosa que eu já antevia para o dia seguinte?
Acordei com o sol entrando pelo quarto. Levantei-me discretamente pensando: “Teremos um longo dia pela frente”. Mas não custa nada disfarçar o paulistês da minha linguagem. Já pensou entrar num bar, o Bracarense, por exemplo, e sapecar: “Três pastel e um chopps, faz favor, belo”? Não tenho nada a esconder, mas nesse primeiro domingo seria legal não dar muita bandeira.
Paramentado, segui em direção ao calçadão, palco da minha volta triunfal ao convívio com os cariocas do Leblon. Levando Nilza pela mão, respirei fundo e pisei nas pedras portuguesas como quem pisa num tapete de memórias: “Vamos andar até o canal do Jardim de Alá”, sugeri. Trinta metros de caminhada, se tanto, o cadarço do meu tênis novo desamarra. Displicentemente, como convém a um típico morador do Leblon, me abaixo para amarrá-lo. Pra quê, rapaz! Uma senhora que vinha logo atrás de mim quase montou nas minhas costas. O casal atrás da senhora trançou as pernas no pescoço da coroa e assim, sucessivamente, corpos seminus e bronzeados foram se embolando numa cena dantesca e imoral que se estendeu até a Avenida Niemeyer. Não fiquei pra ver, mas ouvi dizer que os bombeiros vieram com um carro pipa para separar os corpos engavetados.
Depois de muito procurar, encontro a Nilza aos prantos. Para acalmá-la, aponto na direção das ilhas Cagarras. Estranho... Não me lembrava de que no meio do calçadão tinha um muro. Que muro coisa nenhuma! Ao esticar o braço, encaixei um direto na orelha amarrotada de tanto esfregar no tatame de um garotão que levava um dogue alemão pela coleira. A galera chegou junto. “Beleza, Scud, bota o paulista pra dormir.” Que apelido singelo, o do cara, não? “Scud”! Um fofo. “Aí, Isshcud, leva o velhote pro chão e finaliza ele.” Me senti numa arena com o povo pedindo meu sangue. O tal do “Scud”, sensível e generoso, ainda meio zonzo, decretou: “Deixa o coroa ir embora, esse cara não dá nem pra saída.” Ô homem bom, esse “Scud”.
Chamei minha companheira e segui caminho. Prudentemente, ela perguntou: “Vamos voltar pra casa?” De jeito nenhum! E os meus conhecidos? Seguimos caminho.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4