segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Coluna do Aquiles, o CD instrumental de João Parahiba


A locomotiva rítmica do samba-jazz

           João Parahyba é um dos maiores bateristas brasileiros. Seu DNA rítmico nasceu da forma como tocava timba. Isso quando ele integrou o Trio Mocotó, junto com Fritz Escovão e Nereu Gargalho, nos anos 1960: três sambistas que, sem perder de vista o jazz e o rock, proporcionaram novos ares ao nosso velho e bom ritmo.
           Ao se desligar do trio, em 1973, João parecia ter também desencanado da música. Nada disso. Sete anos depois ele estava de volta. Suas baquetas seguiam tão surpreendentes como antes. Sua veia de misturador de gêneros fervia mais do que sempre: samba-rock, samba-jazz, samba, rock, jazz, tudo junto e misturado a um só tempo, o suingue de cada um desses gêneros brotando aos borbotões.
           Em 2000, ao retomar o trabalho com o Trio Mocotó, Parahyba aqueceu as mãos e retomou o gosto pelas coisas das batidas diferentes, até que, anos mais tarde (2009), convidou Beto Bertrami (pianista), Rudy Arnaut (guitarrista), Giba Pinto (contrabaixista), Ubaldo Versolatto (saxofonista e clarinetista) e Janja Gomes (reprocessamento e samples) e com eles formou o João Parahyba Sexteto, que lançou o CD O samba no balanço do jazz (selo Sesc SP).
           Para tocar temas que marcaram a música brasileira instrumental dos anos 1930, como “O Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, e dos anos 1960, como “Nanã” (Moacir Santos), “Sambou, Sambou” (João Donato), “Batida Diferente” e “Estamos Aí” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira), o sexteto de João Parahyba convidou outros grandes instrumentistas: Tiago Costa (pianista e arranjador), Clayber de Souza (gaitista), Nailor Proveta (clarinetista), Teco Cardoso (saxofonista e flautista), Marcelo Mariano (baixista) e Rodrigo Lessa (bandolinista). A esse repertório se somaram três composições do próprio João Parahyba, uma de Laércio de Freitas (cujo arranjo é do próprio Laércio), outra de Gilberto Pinto, outra de Janja Gomes, outra de Amilton Godoy (cujo arranjo é do próprio Godoy), outra de Rodrigo Lessa e Eduardo Neves e uma de Marcos Romera.
 Para realçar suas interpretações, os instrumentistas se revezam em meio a saborosos improvisos jazzísticos, aprazem-se com as requintadas melodias e vez por outra se juntam para sonorizar o conceito que se traduz na tal mistura do chiclete com banana apregoada por Jackson do Pandeiro: harmonia de gêneros musicais universais e complementares (sem antagonismos e posturas xenófobas) da cintura brasileira. O resultado dessa união de genialidades é um samba elevado à máxima potência.  
          Em cada faixa tem-se a forte presença da bateria de João, que toca como um trem que, com suas rodas unidas a dois eixos que vão e vem, soa a batida ideal para a levada do ritmo. Os outros instrumentos viajam juntos na fantasia.
          Xique-xique-tic-tic-xique-xique-tic-tic, vai o trem abrindo caminho, com João Parahyba e seu talento inconteste à frente, avivando o som musical da alegoria. O trenzinho segue delirante... O samba-jazz está com ele.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Rafael Altério


Milagreiros, graças a Deus

        “Elegbá veio, sou eu, elegbá, laroê/ Com Zumbi que veio de elegbá/ Pode tu, Zumbi Bará, pode ir/ Pode ir lá/ Que teu povo veio chamar”, versos de “Zumbi Bará” (Rafael Altério e Paulo César Pinheiro). Assim canta Rafael Altério, abrindo seu CD Santo de Casa (independente, com patrocínios). Aceitando o chamamento, levou consigo sua brasilidade e seus santos de casa: amigos de fé, músicos de boa cepa, todos integrados no papel de solidificar a mistura da sonoridade harmônica com o fervor rítmico, resultando em música de brasileira qualidade.
        Para tanto, contribuem os arranjos – a maioria de Rafael Altério (a direção artística é dele e de Celso Viáfora) – e as percussões, principalmente quando estão nas mãos de Kleber Benigno (Paturi), Márcio Jardim e Nazaco Gomes, os meninos paraenses do Trio Manari. Aos tambores amazônicos se juntam as teclas dos pianos (Paulo Calazans, Breno Ruiz e Rafael Altério), o acordeom (Breno Ruiz), a bateria (Gabriel Altério), a flauta (Teco Cardoso), as cordas dos violões (Luiz Ribeiro, Dani Black, Pedro Altério, Dani Altman e Rafael Altério), o baixo (Marcelo Mariano), a guitarra (Léo Amuedo e Dani Black) e o cello (Mariza Silveira). Toda essa gama infinita de sons vigorosos dá a Rafael o direito de impor com dignidade o seu vozeirão – sua voz tem o seu tamanho. Cercado de amigos, desde os instrumentistas até o coro feminino, ele não poderia deixar de também trazer para perto de si os parceiros letristas, Paulo César Pinheiro, Celso Viáfora, Joãozinho Gomes, Breno Ruiz e Rita (esposa) e Pedro Altério (filho). Todos santos da casa dos Altério, milagreiros, graças a Deus.
        Ao ouvir as onze faixas do CD, entende-se perfeitamente o que Rafael quer com a música e o que ele ambiciona alcançar com ela: para Altério, música é missão cultural. Sabedor de tamanha exigência para consigo próprio e para com sua obra, trata de criá-la como quem concebe um filho.
        A pegada da pele dos tambores está presente em quase todas as faixas. Com o balanço comendo solto, impossível aquietar o esqueleto. E segue o som, até que chega um momento de calmaria: André Mehmari tocando ora piano acústico, ora acordeom, e Rafael cantando, dele e Rita, “Flor de Rio”.
        Logo a seguir, “Quando o Galo Cantar”, também dos dois. Os tambores do Manari e a flauta pontuam o início do canto. O pandeiro (Douglas Alonso) tem vez e segue até que o violão de aço, a bateria e o baixo, este com uma puxada de intensa pujança, juntem seu som à voz. A caixa da bateria conduz agora. O coro feminino reforça. O violão e a flauta fazem breve intermezzo. A melodia volta com Rafael e o coro... Meu Deus!       
        É a hora do sincretismo musical/religioso/afetuoso de Altério se despedir. E ele canta a letra de Joãozinho Gomes para “Camarada de Ogã”: “Vou pela manhã, tô indo agora/ O dia raiou fora de hora/ Vai junto de mim/ São Sebastião crivado/ São Bartolomeu irá ao meu lado”.
        A casa dos santos de Rafael Altério está aberta.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Luiz Millan - Tocando nas nuvens


Tocando nas nuvens

        Entre Nuvens (independente) é o primeiro disco de Luiz Millan. Bom compositor, letrista inspirado, o trabalho é um belo cartão de visita. A partir dele, sua passagem pela grande porta da música brasileira de qualidade se mostra real.
        Michel Freidenson (arranjador e diretor musical) deu ao seu teclado e às flautas de Léa Freire (com direito a saboroso fraseado da flauta baixo) a responsabilidade de começar “E o Palhaço Chorou” (Mozar Terra e Luiz Millan), música que abre os trabalhos. Junto com eles vão os violinos de Luiz Amato e Esdras Rodrigues, a viola de Emerson De Biaggi e o violoncelo de Adriana Holtz. O som resultante cria a beleza que deságua no doce cantar de Ana Lee. O chorinho de boa cepa segue brejeiro. O teclado toca notas de suave requinte. A cortina do naipe de cordas deságua na amplidão da boa música. Afinada que só ela, Ana Lee dá à melodia o valor que enriquece os versos de Millan e a harmonia de Mozar.
        “A minha máquina escreve letras sem pudor/ E frases perdidas entre a metafísica e o amor”, versos de “Montparnasse” (Plínio Cutait e Luiz Millan), traduzem o objetivo poético de Millan. Para cantá-los, Consiglia Latorre... Deus do céu! O que é a voz dela? Agudos límpidos, emoção à flor da pele, respiração impecável... O acordeom (Toninho Ferragucci) e o piano iniciam a canção quase frágil, tamanha é sua delicadeza. O acordeom se destaca. O violão toca a harmonia, porém se faz protagonista num breve dedilhar de notas uníssonas com o canto. O intermezzo de acordeom e violão, com o piano a fazer-lhes cama, é especial.
        Ana Lee inicia “Mito” (Luiz Millan e Ivan Miziara), uma das quatro músicas do CD para as quais Luiz Millan criou a melodia, não os versos. Mais uma vez, o arranjo de Freidenson usou cordas e teclado, além de baixo (Sylvinho Mazzucca), cuja pegada reforça a levada sem tirar-lhe a suavidade, e bateria (Alex Duarte), que se vale dos pratos para acentuar a força dos versos, sem, no entanto, encobri-los. Tudo isso encarrega-se de vestir uma das mais belas canções do CD. Canção que parece feita para a voz de Ana Lee, pois, ao cantá-la, transforma-a numa ode à paixão. O intermezzo de teclado e cordas é belo em sua fortaleza. Ao retomar o canto, Ana Lee delicia-se com palavras: “Tens esta partitura/ Nas vértebras finas/ Tua música pura/ Rima íntima”.
        “Outono” (Luiz Millan e Michel Freidenson), um dos dois temas instrumentais do CD, tem no sax soprano de Teco Cardoso o ponto de partida. O teclado o acompanha. As cordas também. Mais um belo arranjo de Michel. O acordeom de Ferragucci chega para aumentar a temperatura e o prazer de fazer da música fonte de deleite estético.
        Instrumentistas, cantoras, compositores, arranjadores, um grupo coeso que só ratifica a excelência musical, instrumental, vocal e poética de um trabalho que abre a possibilidade de mais um compositor se juntar ao time dos que fazem da música brasileira a mais rica e diversificada do mundo: Luiz Millan.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Sérgio Sampaio


O bloco volta à rua

        O LP Sinceramente, de Sérgio Sampaio, lançado de forma independente em 1973, está de volta à praça. Se por acaso você, leitor, acha que nunca ouviu falar de Sérgio Sampaio, tente cantarolar este refrão: “Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender”. Lembrou? Pois é... Sérgio Sampaio arrasou nesse baita sucesso.
        Logo após o estouro nas vendas do compacto que continha “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, apresentada no VII Festival Internacional da Canção da TV Globo (1972), e não conseguindo igual êxito comercial nos três LPs que vieram a seguir, Sampaio foi tachado pela indústria fonográfica de “artista difícil” e pela mídia de “autor maldito”.
        Seu primeiro LP (1973) tem como título o mega hit Eu quero é botar meu bloco na rua. Em 1976 veio o segundo: Tem que acontecer. E, relançado agora em CD, Sinceramente (1982) foi seu terceiro e último long play solo. Com onze músicas suas, sendo uma (“Cabra Cega”) em parceria com Sérgio Natureza, Sampaio abriu o peito e demonstrou o quanto sua alma estava dilacerada. Os tempos andavam bicudos...
        Contando com a participação talentosa de Renato Piau (pianista e parceiro de Sérgio Sampaio desde sempre), Zezinho Moura (piano elétrico), Ricardo Feijão (baixo), Charles Chalegre (bateria), Oberdam Magalhães (sax e flauta), Luciano (arp strings), Serginho Boré (percussão) e com o violão acústico de Sérgio Sampaio, Sinceramente (Saravá Discos) se revela um CD bem remasterizado, cujo som tem brilho e profundidade.
        Além de samba, boleros e canções, o álbum tem baladas que despretensiosamente namoram o brega, sem, contudo, permitir que se lhes pespeguem tal adjetivo. Pois elas lembram, na verdade, a pujança transformadora das baladas que Raulzito tão bem difundiu e Sérgio adotou.
         “Essa Tal de Mentira” é uma canção na qual a boa voz de Sampaio é embalada pelo som dos violões (um improvisa, enquanto o outro harmoniza) e do baixo. Os versos ecoam seus sentimentos: “Com a alma partida/ Dando com o corpo nas grades da cela da vida/ Como num mar de paixão/ Náufrago que estende a mão/ Agarro o meu violão/ E canto uma canção”.
        Luiz Melodia divide o canto com Sérgio no samba “Doce Melodia”, homenagem de Sampaio a Luiz Melodia. Divertidos e cheios de ginga, os dois se esbaldam e esbanjam malandragem.
        O violão começa “Nem Assim”. A voz de Sérgio vem firme, entoando as dores da separação, mas tudo com muito bom humor.
        Em “Sinceramente”, a música que dá título ao disco, os violões acompanham a voz que vai aos agudos para cantar notas da melodia. Os versos são um louvor à independência, no sentido mais amplo do termo: “Não há nada mais tranquilo/ Do que ser o que se sente/ E poder amar, perder, chorar/ Depois ganhar/ Assim sinceramente”.
        Vítima de pancreatite, Sérgio Sampaio nos deixou em 15 de maio de 1994. Mais um dos grandes compositores que a música brasileira perdeu para o alcoolismo. Pena.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Patrícia Ahmaral


O poder de uma cantora

        Depois de lançar dois discos, a cantora e compositora mineira Patrícia Ahmaral volta à cena comSuperpoder (gravado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, com o patrocínio da Vivo).
        Produzido pelo contrabaixista Fernando Nunes, também arranjador das treze músicas do álbum (em duas delas dividindo o trabalho com outros três arranjadores), contando com participações especiais de Lucinha Turnbull (em “Trilha de Luz”, da própria Lucinha) e de Chico César (em “Sorry, Baby”, uma das três músicas de Patrícia presentes no disco), tendo no repertório desde Alceu Valença, Lula Queiroga (autor da faixa-título) e Belchior até Zeca Baleiro, Caetano Veloso e Torquato Neto, passando por Totonho, Vander Lee (presente com duas músicas – uma delas, “Revoada”, em parceria com Ahmaral), Paulo César Barros, Getúlio Cortes, Carlos Tê e Hélder Gonçalves, Superpoder justifica o título: Patrícia é poderosa.
        Seu poder maior advém da força do seu cantar. Levando as interpretações às últimas conseqüências, sem medo de se fazer intensa ou demasiada, as palavras lhe saem como petardos que miram o entusiasmo do ouvinte, trazendo-o pelo ouvido para a roda de fogo. A chama de seu canto acende o prazer de vê-la afinada, sem deslizes que pudessem comprometer o seu desempenho.
        Sua poética é forte, como mostram os versos da sua “Do Querer” e de “Sorry, Baby”, uma parceria com Chico César – que com ela divide o canto: Pelas mazelas/ Pelo medo/ Pelo soco na cara/ Pelo tapa na veia/ A navalha/ Pela noite escura/ Pela bala/ Pela infância bandida/ Pela fumaça (...)
        Os arranjos, tanto de uma quanto da outra, têm zabumba, triângulo, coquinho, caxixi, block, pandeiro árabe e ganzá nas mãos de Bruno Santos. Têm ainda, a bateria de Luís Patrício e o pandeiro e a cuíca de Guilherme Kastrup, tudo ajuntado ao acordeon (Tatá Sympa), ao violão de náilon (Fernando Nunes), ao violino (Júnior Gaiatto), ao violão e ao banjo (Tuco Marcondes). A mistura confere à pisada riqueza surgida no calor e na fortaleza da cultura musical do Nordeste, com tempero das Gerais, coisa que o ouvinte num instantinho sacará, ainda que jamais tenha posto os pés naquelas terras nem os seus ouvidos nunca tenham sentido a sua plenitude.
        Para melhor avaliar uma cantora a quem nunca ouvimos antes, nada melhor do que ver como ela se sai numa música cuja gravação marcou época. E Patrícia Ahmaral brilha em “Mamãe Coragem” (Caetano e Torquato), com direito à citação de outra canção deles, “Deus Vos Salve Esta Casa Santa” e à levada pop de rico poder de arrebatamento... Caetano adorará ouvir.
        Com arranjo calcado em guitarras, violões e bateria, tendo o baixo a segurar as pontas e os teclados soando detalhes precisos, “De Romance” (Zeca Baleiro) realça a modernidade do cantar de Patrícia, quando a fortaleza volta a dar as caras e vigora a cantora poderosa que salta no escuro sem rede de proteção, voando pelo mundo que abre os braços e a acolhe.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Mário Sève e Cecilia Stanzione


Musicalmente necessário

        Logo que recebi Canción necesaria (Núcleo Contemporâneo), CD que reúne a cantora argentina Cecilia Stanzione e o compositor, arranjador e mago dos sopros Mário Sève, chamou-me atenção o título. Antes mesmo de rodar o disco pela primeira vez, pus-me a matutar sobre o seu significado.
        Que atributos a música deve ter para se fazer necessária? Será que é o momento pelo qual passamos que a torna importante a ponto de marcar uma etapa de nossa vida? Será que é uma harmonia bem trabalhada, um verso que diz o que não conseguimos dizer ou o som de um instrumento que atiçam a nossa emoção? Ou é o timbre de uma voz que se esgueira pelos poros, indo ao nosso âmago, atingindo o que temos de mais reservado, que faz uma canção ser, de fato, necessária?
        Uma música se faz imprescindível quando nos surpreende, quando nos pega de jeito, de uma forma para a qual não estamos preparados. Necessária é a música que se faz trilha sonora de um momento, tornando-se nossa parceira vida afora. Ela é necessária quando dela nos tornamos amantes confidentes, quando só ela nos desperta o choro ou a alegria. Necessária é a canção que nos faz reféns das garras do seu encantamento.
        Canción necesaria traz onze faixas de autoria de Cecilia e Mário: “Una Milonga” tem belíssimo arranjo de Gabriel Geszti, no qual pontificam o sax tenor de Sève, o violão e o baixolão de Rene Rossano, o cello de Lui Coimbra e o piano e o acordeon de Geszti. Com um singelo desenho melódico de seis notas (por vezes trocando a nota final) tocado pelo baixolão, ora só, ora com o piano, e que se repete desde a introdução até o final, vem a voz caliente de Cecilia Stanzione. Poderosamente afinada, criativamente emocionada, enquanto lhe dá ares épicos ela reforça a dor da canção, criando atmosfera lírica e sombria ao mesmo tempo. O diálogo da voz com o acordeon é rico em interpretações várias. O piano e o cello criam um módulo sobre o qual o arranjo flui como um rio tranquilo O sax se une a eles para, com a voz de Stanzione, encerrarem. Meu Deus, eis uma canção necessária.
        O violão toca desenho de simplicidade contagiante. A voz que dá início a “Justo Ahora” é de Ney Matogrosso – a levada da canção tem a cara das músicas em que Ney mais brilha, e ele não nega fogo. A puxada do baixolão carrega junto o sax e o violão. O arranjo de Mário Sève dá ainda mais sabor à música, ela que ganha muito mais peso quando Cecilia se junta a Ney, em preciso dueto com direito a vozes abertas. O intermezzo de sax e acordeon é papa fina. Com vocalises e o acordeon, vão ao final.
        Apenas a voz e o acordeon interpretam “Perfume de Violetas”. A simplicidade do arranjo de Gabriel Geszti permite que a voz de Cecilia ganhe profundidade. Carregando nos erres, ela se desvela em carinhosa e afinada interpretação, e seus agudos soam com a precisão de faca cortando manteiga.
        Canción necesaria é um trabalho que merece toda a atenção, pois se trata de um CD musicalmente necessário.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Coluna (reflexão) do Aquiles


Um pássaro chamado Sucesso

        Ele nasceu cego num ninho no forro de um velho teatro. Rejeitado por pais e que tais, foi abandonado para que definhasse sua solidão até que a morte viesse. A companhia teatral acompanhou o nascimento de sua plumagem e, mesmo sem compreender exatamente o que fazia ali aquele pássaro dia e noite, quase imóvel, no alto do madeirame que sustentava o cenário, aprendeu a conviver com ele. Era com se fizesse parte da montagem do espetáculo. Um ator a mais.
        O pássaro cego cresceu alimentando-se de palavra e música. Ousava voar quando se fazia o silêncio. Como um fantasma, conheceu cada canto do teatro. Deixava-se ficar por longo tempo nos camarins. As gavetas vazias, ah! Quanta magia naquela ausência de objetos. Gavetas prenhes de desejos, repletas de confidências não reveladas. Desejou morar numa delas. Sentindo o calor das luzes que emolduram o espelho, o pássaro cego tentava vislumbrar sua imagem. Em vão.
        Dia de estreia. “Lotação esgotada”, dizia a placa pendurada na bilheteria. A plateia rebuliça. A coxia treme. O pano sobe. As luzes acendem-se. O pano sobe, o espetáculo começa. Cai o pano.  Os aplausos vêm como uma chuva forte, torrencial. Imóvel, o pássaro vibra. O som das palmas entra por sua penugem e soma-se às palavras e músicas que lhe habitam o corpo.
        No proscênio o elenco agradece ao público. Acende-se um refletor em contraluz. Vislumbra-se uma sombra em silhueta. Num gesto teatral, a atriz principal olha para o alto. Todos acompanham seu movimento. Sua voz vem firme: “Pássaro que está prestes a morrer, para que tu não vás pagão eu te batizo. De hoje até tua morte inevitável e prematura, atenderás pelo nome de Sucesso.”
        Finda a temporada, novos teatros acolheriam a trupe que continuaria buscando fazer a emoção e o riso chegarem à plateia. Esta é a vida de quem vive para o teatro. Cada palavra, cada nota musical, é buscada dentro da alma e despejada sobre o espectador na esperança de vê-lo feliz.
        Pássaro espetáculo, Sucesso ama tanto o palco quanto ao ar que o sustenta em voo. Quando a cidade dorme, ele decola para sua missão: inocular o vírus do amor ao teatro nos que sonham. Movido por sua cegueira, ele “sente” quem devaneia. Em suas casas Sucesso pousa. Dá três batidas, como as de Molière, e as janelas abrem-se, como cortina do teatro.
        Iluminado na cegueira, Sucesso anuncia, em versos, os espetáculos que estão em cartaz na cidade. Envolto em panos teatrais, ele faz com que suas palavras invadam o coração daqueles que nas noites seguintes irão ao teatro. Sucesso voa, também, até a janela dos artistas que desafiam o tamanho das salas de espetáculos. Seja astro ou principiante, o pássaro invade seus corações, dando-lhes esperança e força.
        Sucesso volta ao teatro, adormece no camarim e sonha com Goethe, que recita a primeira frase de sua “Carta de Aprendizado”, escrita para o personagem Wilhelm Meister: "Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião (...)"
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
PS. Aguenta firme, Doutor Sócrates!