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segunda-feira, 28 de março de 2011

Coluna do Aquiles, o CD do quinteto instrumental Bamboo

Viva a música instrumental!

        Integrado por Alex Buck (bateria), Bernardo Ramos (guitarra e violão), Bruno Aguiar (baixo acústico), Josué Lopez (sax tenor) e Vitor Gonçalves (piano e acordeom), o Bamboo lançou seu primeiro disco (Brasilianos), que tem como título o nome do grupo.
        Você aí, que está lendo este texto, eu sugiro que busque ouvi-los. Ótimos músicos; bons temas compostos por eles; arranjos inspirados; solos, duos e improvisos plenos de criatividade. Intensos, mas irreverentes, experimentados, tão virtuosos quanto eficientes, eles se juntaram para iniciar um ótimo trabalho instrumental.
        Maracatu no Bambu (composição e arranjo de Bernardo Ramos) se inicia com o belo sopro do sax. O piano apoia e o maracatu soa esperto, em levada estilizada. O baixo, a bateria e o piano antecedem o improviso do sax. Logo a bateria, precisa, trisca nos pratos. O piano muda a concepção inicial e toca o tema de forma menos formal, mais desprendido da harmonia. Um rufo da bateria leva ao final.
        Sem Início, Sem Fim (composição e arranjo de Bernardo Ramos) vem com a arguta sonoridade da guitarra. O poderoso baixo acústico se junta ao piano e à bateria. O intermezzo fica a cargo do piano e do baixo. A guitarra assume o improviso, amparada por piano e bateria. O sax volta a solar, também escudado por bateria e piano, este que passa a improvisar. A bateria dá início a um quase solo, posto que a mixagem a coloca no mesmo plano do baixo. E o sax volta, e a guitarra sola... Meu Deus!
        Márcio Bahia (composição e arranjo de Alex Buck) conta com participação do bandolim de Hamilton de Holanda, que, junto com o sax, começa. Em poucos compassos, o baixo improvisa (!) sobre toques da bateria. Em ritmo alucinado, o acordeom brilha. O bandolim inicia um solo contido, mas logo se solta e arrasa.  O acordeom e o sax tocam em duo. Acompanhada de bandolim, acordeom e sax, a bateria sola... Que baita improviso, Deus do céu! Em revezamento, todos tocam para encerrar.
        Gratidão (composição e arranjo de Bernardo Ramos) é um tema extremamente doce. O violão dá o clima. Cuidadosamente, junto com o baixo, a bateria risca os pratos. O piano improvisa. Baixo e bateria pegam leve. Como se chorasse, o sax sola. A bateria cadencia e logo assume o ritmo de fato. O sax continua. O piano se une ao baixo e à bateria que toca nos pratos. Voltam sax e piano, e logo todos estão juntos novamente. Show!
        Nova Bossa (composição de Josué Lopez e arranjo de Josué Lopez e Bernardo Ramos) começa com piano, guitarra e bateria. Ao sax cabe o tema. A bossa nova assume sua cara. Para improvisar, a guitarra dispensa o ritmo. Piano e sax desenham. A guitarra volta à bossa nova. O duo agora é de guitarra com o sax, até que este se solta para improvisar. A bateria se agita e reúne todos para o final...
        Você pensa que acabou? Não, ainda há muitas mais. O que acabou foi o espaço para continuar a enaltecer um disco que engrandece ainda mais a música instrumental brasileira.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 21 de março de 2011

Coluna do Aquiles, o CD Áurea Martins

A áurica voz de Áurea Martins

Depontacabeça (Biscoito Fino) é o novo disco da dama dos dissabores. Que, com bons arranjos do violonista Lucas Porto, tem no repertório músicas de diversos autores em parceria com Hermínio Bello de Carvalho.
Abrindo, Áurea canta “Me Diz, ó Deus”, uma das quatro parcerias de Hermínio com Moacyr Luz presentes no CD. O violão e a flauta são acompanhados por leve toque do tamborim. A potente voz de Áurea avisa: a emoção começou. O cavaquinho desponta. Entendendo o chamado, flautas e clarinete se juntam à bateria e o ótimo samba ganha peso.
“Isso é Que É Viver” (Pixinguinha e HBC): o surdo marca, o violão de sete cordas ponteia com as baixarias que dão cara ao samba. O sax sola o intermezzo. Áurea canta e demonstra que poucas intérpretes têm tanta sensibilidade para dividir frases musicais. E seus graves? E seus agudos? Raros!
Mais duas músicas de Moacyr Luz: “Quando o Amor Acaba” e “Só o Amor Constrói”. A primeira é emocionante. Suave, a introdução entrega à cantora numa bandeja de prata a possibilidade de ser ainda mais pungente. Acompanhada apenas por cello e violão, Áurea se desvela ao cantá-la. Para tocar a segunda, o violão muda a levada, mais balançada. O sete cordas e o bandolim se esbaldam no samba.
“Cobras e Lagartos” é grande parceria de HBC com Sueli Costa. O piano dá o clima de casa noturna. Apesar de se valer dos pratos, a bateria toca suave, como que para não atrapalhar os casais que bebem e se beijam. O bandolim sola bonito. Áurea volta e o bandolim continua com ela. Findo o canto, o bandolim segue. Belíssimo momento de depontacabeça.
Para encerrar, “Pressentimento”, obra-prima de Elton Medeiros e HBC, revela uma Áurea Martins com pleno domínio da voz e das emoções. Em clima de gafieira, com direito a naipe de trombone, sax, trompete, coro e tudo o mais, o clássico se junta a “Quem Disse Que Eu Mereço” (Dona Ivone Lara), que traz o poeta Hermínio cantando. Um final de fazer sangrar corações.
Como a samambaia chorona que se debruça sobre o xaxim e cai até quase beijar o chão, Áurea derrama seu dilacerado canto na terra que se abre em imenso poço, onde o sofrimento adquire o ar da música que o redimirá. Como um paiol de pólvora prestes a pipocar, ela se põe de cabeça para baixo e explode em mil cacos musicais.
Poeta sem certezas absolutas, aberto à dúvida e ao pé atrás, disposto que é a criar belezas inusuais, os versos de Hermínio capturam o simples, tornando-o ainda mais popular, e podem ser tão lancinantes quanto a voz negra de Áurea. Poeta que procura sons que lhes são bússola a apontar nortes e buscar caminhos sempre à frente, de tão musicais suas frases parecem ser escritas diretamente no pentagrama. Depois de ser cantado por grandes damas da música, ele tem a ventura de cair nos braços daquela que se revela uma de suas maiores intérpretes: Áurea Martins, a que consegue dar ao poeta a picardia definitiva e ser a parceira vocal que todo compositor merece e carece ter.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Coluna do Aquiles: Protestar é preciso


Protestar é preciso

      Quando é que o compositor decide fazer uma canção de protesto? Quando é que o poeta resolve se insurgir contra a injustiça, a esta dirigindo seus versos e não à sua amada? É no tempo de uma ditadura militar? É sob o jugo da repressão feroz que tortura e mata? É quando vê calarem sua voz pela força da censura? Claro que sim! Não necessariamente.
      Faço parte de uma geração de protesto. Criamos uma estética de contestação, por intermédio da qual nos rebelávamos contra a ditadura e a repressão da censura. Naquele momento (pós-1964, pós-1968), era a maneira que tínhamos de exercer nossa cidadania.
      À época, muitas vezes, elegemos algumas canções – que não protestavam contra a ditadura –, como símbolos da luta de resistência. João do Vale e seu “Carcará” são um bom exemplo, ele que não era o que se poderia chamar de um autor de protesto. Engajado? Talvez. Menos por isso e mais por nossa necessidade de vermos “revolucionários saídos do povo”, “Carcará” era um dos nossos hinos.
      Num momento em que o confronto com a censura era inevitável, todos temos histórias das quais saímos pouquíssimas vezes vencedores e, de outras tantas, remoendo uma raiva impotente pela derrota.
Em 1971, o saudoso Maurício Tapajós mostrou para o MPB4 uma canção que acabara de criar com Paulo César Pinheiro: “Pesadelo”. “(...) Você corta um verso eu escrevo outro (...)”. “Isto não passa na censura, Maurício!”, dissemos. “Se eu conseguir liberar vocês gravam?”, desafiou ele. “Claro!”, respondemos, incrédulos.
Maurício e Paulinho levaram à censura várias letras de ingênuas marchinhas de carnaval e, no meio do bolo, “Pesadelo”. O carimbo “liberado” foi batido burocraticamente em todas aquelas músicas para a festa, inclusive “Pesadelo”, que não tocou no Carnaval... Gravamos a música em 1972. Comemoramos e rimos como se a batalha houvesse sido ganha.
Em 1973, junto com Chico Buarque e Gilberto Gil, participávamos da Phono 73, cantando “Cálice”, dos dois, inédita à época. Na cabine de som do Anhembi, em São Paulo, um batalhão de censores acompanhava ostensivamente a “inocente” mostra de música.
Cantados os primeiros versos, os microfones “misteriosamente” emudeceram. Percebendo a manobra, nós mesmos, no palco, diante da plateia atônita, começamos a substituir por outros os microfones emudecidos pelos agentes federais. Foi uma sequência angustiante de “emudecimentos”. Ao final da batalha, um mar de microfones, mudos como os cantores, os compositores e o público. Essa nós perdemos e choramos de raiva.
Sempre haverá música de protesto. Haverá época em que canções serão criadas para protestar contra aquelas outras que já protestavam e cujas letras reclamavam contra injustiças e arbítrios. Dom e Ravel cantam “Eu Te Amo, Meu Brasil”; os Paralamas do Sucesso, “Trezentos picaretas com anel de doutor”. O Planet Hemp, a maconha... Tem lugar para todos.
Enquanto houver um poeta olhando a lua e um déspota no poder, haverá música de protesto.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD da banda Caixa Preta

Jongo no liquidificador

            Em atividade há 12 anos, a banda vocal e instrumental Caixa Preta nasceu sob inspiração do jongo de mestre Darcy, um preservador do elemento da ancestralidade: os tambores do jongo, conhecido como a dança das almas.
            Foi a partir dessa fonte encantada, no morro da Serrinha, que fica entre os subúrbios cariocas de Madureira e Vaz Lobo, que os meninos da Caixa se deixaram impregnar pelo amor ao batuque. Desde então, cuidaram de amalgamar ao jongo diversas manifestações musicais que a ele conferissem modernidade. Começava a germinar ali Jongo Contemporâneo (independente), o segundo CD do grupo, cujo som reflete, a um só tempo, tradição e modernidade.
            A salada de frutas que compõe o repertório do álbum nasceu, basicamente, da concepção musical de Augusto Bapt, vocalista e autor das 11 faixas do disco – sendo quatro em parceria com Rodrigo Braga e uma com Seu Jorge e Gabriel Moura.
            Além do já citado Bapt, são mais quatro os integrantes que fazem o jongo contemporâneo da Caixa Preta: Kátia “Preta” Nascimento (trombone), Marcos Feijão (bateria e percussão), Robertinho de Paula (guitarra, violão de sete cordas e viola caipira) e Joe Lima (baixo e cavaquinho). Todos atentos à memória e à revitalização da cultura musical brasileira.
            Em “Cidadão Comum”, um rap marcado pelo baixo e pela percussão, a levada do jongo se mistura com a do samba e a do funk, resultando no suingue contagiante de um reggae. A célula rítmica, somada ao naipe de metais, se encarrega de materializar as síncopes e de dar a elas o ar sadio do presente.
            “Baile Funk no Terreiro” começa num maculelê (ou seria um funk?), que logo desdobra em samba. Não demora e o jongo chega arrepiando. E o som da Caixa Preta assume sua vocação maior: valer-se desse ritmo para criar uma miscelânea sonora de alta voltagem instrumental, dançante, vibrante.
            As congas iniciam “Onde Você Pensa Que Vai”. A guitarra marca presença. Os metais soam grave. O jongo está ali, vivo em estado primitivo, mas, ainda assim, contemporâneo.
            “Santa Ferveção” tem letra que denuncia: Santa ferveção/Da favela à beira- mar/A lei da pólvora está/Atirando flechas de contradição. Para cantá-la e tocá-la, a Caixa não economiza em dramaticidade. Nem na força da pegada pop.
            “Fogueira do Brasil” é samba que remete a um tempo em que protestar era preciso. O canto soa rascante – assim pede a letra. Os metais e os atabaques se espalham. A seguir, “Mangue de Sepetiba” tem baixo e o naipe de metais em ebulição. A bateria e a percussão brilham.
            E então o mangue dos subúrbios cariocas se une ao mangue do Capibaribe recifense. A música os faz gêmeos. E Chico Science e Augusto Bapt se tornam uma só voz. É a tradição das músicas carioca e pernambucana servindo ao mesmo propósito: atualizar-se para melhor cantar sua gente.
            Assim como a música pernambucana deve a Chico Science e Nação Zumbi a sua revigorização, o jongo deve a mestre Darcy e à banda Caixa Preta a sua contemporaneidade.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Túlio Borges, um talento (Coluna do Aquiles)


            Lá vem vindo o menestrel dos desatinos. Vem montado em seu cavalo baio. Magia perambulando infinitos, sobrevoando tempos, pressentindo vidas. Lá vem o poeta avoando, cavalgando um sonho avoengo. Carrega nas mãos o cálice da amarga verdade. Voeja buscando semear boas ideias em terras sãs.
            Ao vê-lo, uma mulher pergunta: “O que pretendes, senhor das noites?” “Deixo que a brisa toque”, ele responde. A mulher prossegue: “O que buscas, senhor dos dias?” “O sino em mim no tempo”, entoa o cantador. Um jovem se intromete: “Ora, mulher, deixe que o homem siga. Não vês que ele é doido?” “Doido só podes ser tu, meu jovem, que não vê arder no cantador a labareda do futuro e do passado”, retruca a mulher.
            Interrompendo o seu passar, o menestrel murmura alegorias... A mulher vira-se para melhor ouvi-lo e vê que quem acabou de lhe dirigir a palavra é agora um vulto que vai distante, em meio a denso feixe de estrelas. Ela acena, numa entristecida despedida. (O moço de há muito tomou outro rumo.) O silêncio se fez mais dolorido do que a solidão. Voltando-se para a mulher, o menestrel lança sua chama derradeira: “O vento sabe quando é tempo, e quando é silêncio entendo”.
A mulher e o moço são, claro, mera ficção. Mas os versos que compõem a fala do menestrel/cantador (“Deixo que a brisa toque/ O sino em mim no tempo/ O vento sabe quando é tempo/ E quando é silêncio entendo”) são da música “Eu Venho Vagando no Ar” (Túlio Borges), que dá título ao primeiro CD deste cantor, poeta e compositor.
            Borges fecha o CD com ela, cantando acompanhado apenas do violão de Rafael dos Anjos e do pífano de Davi Abreu. Rafael dedilha a introdução e segue junto com o pífano de Davi, prenunciando a profundidade do que cantará a voz aguda, firme e afinada de Túlio.
            Para abrir o disco, ele adaptou alguns “pontos” de domínio público que sempre ouviu D. Inácia (que o criou e trabalha com sua família há mais de 35 anos) cantar. Ela sola os versos que encerram a faixa. A percussão de Amoy Ribas realça a pueril candura de cada ponto, todos cantados doce e amorosamente por Túlio.
            Em “Toca Aí” (Túlio Borges), o violão de Rafael dos Anjos é tocado de forma a deixar a letra fluir: “Toca aí uma canção pra eu cansar de ouvir/ Uma canção pra eu pensar em mim/ Pra eu calar e tentar me ouvir/ Vou fechar os olhos/ Se eu chorar, continua/ Há muito choro em mim/ Por mil razões que eu sei/ E mais dez mil que herdei”. Modestamente, eu respondo a cada um dos versos: “Ela está aí, cantador, nós a ouviremos até nos encantar. Nós nos calaremos, poeta, e o ouviremos enquanto o refletimos em nós. Acompanharemos seu choro e seguiremos, pois ele e mil porquês habitam também em nós.”
            Construtor de melodias inesperadas, criador de poesia calorosa, a música de Túlio Borges tudo harmoniza em suave cumplicidade, com cuidadosa feitura. Seu CD independente Eu Venho Vagando no Ar traduz com música os sentidos e os sentimentos que são seus, mas também são nossos.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Clarinete e violão nas mãos de dois virtuosos (por Aquiles Reis)

Clarinete e violão nas mãos de dois virtuosos
(Aquiles Reis*)

        Está na praça e, como diziam os do meu tempo, também nas melhores lojas do ramo (ao menos deveria estar), uma joia em disco instrumental, que reúne dois grandes músicos brasileiros: Alessandro Penezzi e Alexandre Ribeiro.
        Alexandre Ribeiro, aos 18 anos, foi bacharelando em clarinete na Universidade Estadual Paulista. Seu instrumento soa com a delicadeza das asas de um beija-flor parado no ar, e seu clarone domina a cena com o seu som grave, avassalador.
        Alessandro Penezzi, violonista que se dedica especialmente às seis cordas, mas que também toca violão tenor, cavaquinho, bandolim e flauta. Bacharel em música popular pela Unicamp, desde 2005, ele trata o violão com tanto carinho que este o retribui com deferências mil.
        Agora, em 2011, os dois se unem em Cordas ao Vento (Capucho CDs Produções Artísticas). Um álbum com 12 faixas, das quais apenas duas, “Famoso” (Ernesto Nazareth) e “Chorinho Triste”, de João Dias Carrasqueira – cuja gravação conta com as flautas de seu filho, Toninho Carrasqueira –, não são de autoria de Penezzi.
        Um baião elegante, “Cordas ao Vento”, que dá título ao disco e abre os trabalhos, é homenagem de Alessandro a seu pai, Walkir Penezzi. Como em quase todas as outras 11 interpretações, Penezzi está no violão e Ribeiro, no clarinete. A palheta fraseia junto com as cordas. A harmonia propicia isto. A limpeza sonora demonstra a virtuosidade dos instrumentistas. A dinâmica realça a graça da melodia. E assim eles vão construíndo um disco, céleres e brilhantes. O clarinete capricha, num solo de primeira. O violão carrega nas tintas de uma forte pegada.
        “A Caminho de Casa” é um choro dedicado a Paulo Moura. O clarinete puxa a melodia. O violão faz as vezes de mestre de cerimônia (sem tê-la nenhuma!). Ambos os instrumentos se complementam, numa sequência executada em grande estilo. E seguem ressaltando nuances, unindo forças, que se mostram ainda mais joviais num intermezzo movido pela ímpar sonoridade dos dois instrumentos.
        “Famoso” (Ernesto Nazareth), cujo violão de Anibal Augusto Sardinha, o talentoso Garoto, eternizou, é vibrante em sua levada meio tango, meio polca, meio maxixe. O clarinete chora no ombro do violão. Juntos, recriam o ambiente dos antigos salões de baile. O suingue contagia.
         “Capitão Rodrigo”, choro amaxixado que Penezzi dedicou ao amigo Rodrigo Y Castro, conta com a flauta deste último. Sopro refinado. O pandeiro de Léo Rodrigues segura as pontas. O clarinete de Alessandro Ribeiro se soma ao sete cordas, ao violão e ao cavaco de Penezzi, cujo arranjo bem demonstra a sua versatilidade musical.
        “Vá Penteá Macaco”: em uníssono, violão tenor e clarone (que dupla, meu Deus!) dão início à faixa-símbolo da qualidade e da diversidade sonora do CD de Penezzi e Ribeiro. O tenor sola enquanto o clarone pontua (e para que mais?), incendiando a festa, fechando o CD.
        Reabri-lo, mais e muitas vezes, é questão de bom gosto e nexo musical.

*Aquiles Rique Reis, musico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Saudade de Gonzaguinha

Saudade de Gonzaguinha

 

            Quando ele nasceu o São Carlos tremeu. Imbalançou. Veio em frenético galope. O arvoredo, em desalinho, desenhou a figura do menino no topo da copa mais alta. Bem lá em cima o vento uivou um gemido.
A mãe na labuta, né, mãe? Lavar louça é preciso, né, mãe? Navegar não é preciso, tá, mãe? Pega minha mão. Solta não. Tenho medo das manhãs de abril. Meus olhos não deixa ninguém furar, tá, mãe? Não nasci pra ser Assum Preto. Galopar é preciso. Imbalança, mãe.
Ao som do vento que canta ao sol me vou. Eu quero ser feliz, mãe. Vou pro mundo. Correndo desesperadamente atrás da bola de fogo. Mas não vou só. Teu menino nunca estará só, mãe. Tenho companheiros para enfrentar os furacões, traçar os caminhos, escolher os descaminhos. Dar bom-dia à tempestade. Chorar a saudade de ti, mãe. Vem comigo.
Teu menino é forte. Mas ele tem medo. Carrego comigo o cantar da minha gente. Ela precisa de mim, mãe. Vou pra vida a galope. Me dá um cheiro, mãe. Vou descer o São Carlos. Vou voar.
A música é meu ofício. Vou subir o São Francisco. Vou pras terras do meu mundo. Grito. Alerto. Do chão levanto a poeira que há de cegar o carrasco. Canto noite e dia. Beijo bocas. Dou prazeres que não consigo ter. Sinto dores que não suporto sentir. Tenho medo do céu de abril. A florada da mata inunda meus olhos. Uivo à lua cheia meu sonho de liberdade. Tudo é chama. Clamo por justiça, mãe. Germinei a terra fértil. Meu coração bate em outros peitos. Gerei pequenos frutos. Viver é preciso. Imbalança, mãe.
            Quando ele cresceu o Brasil muito que aprendeu. Vertigem no galope desenfreado. A floresta segurou e protegeu seu moleque. Lá do alto da mais alta de todas as copas veio o vento. O gemido.
 Sou das estradas. Fiz meu ninho lá no alto daquele coqueiro. Meu coração quer sair do corpo a galope. Não tá dando pra segurar. Imbalança. Minhas lembranças querem se apagar na beira daquele mar. Imbalança, imbalançá. Vim a galope, a galope vou voltar. Preciso das Minas. Ar pra respirar. Sinto o peito sufocar. Tenho meu canto. Vou galopar. Imbalança. Meu pai dizia: “Minha vida é andar por esse país”. Eu vou atrás, mãe. É meu destino. Por ele choro e canto. Saudade, mãe. Tua benção, pai.
            Manhã de abril. Não consigo ver a beleza das matas. Galopo. Não tô enxergando, mãe. Me pega, pai. Me aperta, mãe. Não vai dar. Imbalança. Não dá pra descansar. Eu quero essa vida mudar. Eia minha gente, imbalança!
            Vou a galope. Pra onde, pai? No que eu posso ainda acreditar, mãe? Só sei que minhas crianças, em sua infinita pureza, me ensinaram a beleza. Muito aprendi por aí, com elas. Estou voltando ao começo, pai. Tenho medo. É manhã de um abril qualquer. Não tá dando pra segurar. Meu coração vai explodir, mãe...
            Vem, meu moleque, imbalança, imbalançá!
            Gonzaguinha morreu num acidente de carro. Era uma manhã de abril de 1991.
PS. Valendo-me de trechos de algumas das canções compostas e cantadas por Luiz Gonzaga do Nascimento Jr., busquei revê-lo A ele, minha amizade. Saudade.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Por uma crítica cultural dialética

Por uma crítica cultural dialética
Iná Camargo Costa
Este texto é um resumo comentado da introdução ao ensaio “Crítica cultural e sociedade”, escrito por T. Adorno no início dos anos 60. Sua inspiração foi um ensaio dos anos 30, de Walter Benjamin, “O autor como produtor” que, por sua vez, é uma reflexão sobre a experiência de Brecht com as peças didáticas. Dada a sua genealogia, podemos assumi-lo como uma espécie de plataforma da crítica dialética.

O crime de lesa humanidade do capitalismo não é o de ter criado uma sociedade materialista onde se desejam bens de consumo, mas tê-la organizado de modo a impedir que a ampla maioria obtenha os bens de consumo que produz. Nós somos pela saciedade e contra a fome em todos os âmbitos, inclusive o da cultura.

Uma sociedade com plena consciência de si mesma não precisaria ter ideologia, necessária em sociedades como a nossa que não pode ter essa consciência, na medida em que ela contradiz seu próprio conceito, o de humanidade. No atual estágio, de acelerado descrédito do neoliberalismo (a última versão da ideologia), que entretanto não sairá de cena de bom grado, a função da cultura e da crítica prestigiadas pelo mercado e seu porta-voz, a imprensa, é empenhar toda a energia no cultivo das aparências e na ofuscação da consciência.

Por outro lado, por mais que se empenhem os interessados na preservação do estado de coisas, eles não têm como impedir por muito tempo a manifestação da cultura, da arte e da crítica dialéticas, que já estão por todo o lado e estão empenhadas, com igual ou maior energia, em forçar a sociedade a confrontar seu próprio conceito. Por isso combatem, às vezes com legítima fúria, obras e opiniões críticas que continuam afirmando falsidades como harmonia, liberdade de espírito, vida, indivíduo e seu cortejo de ilusões conexas. A crítica dialética tem o compromisso de levar a não-verdade à consciência de si mesma onde quer que ela se manifeste.

A profissão de crítico desde a origem tem um elemento de usurpação, fundado na divisão do trabalho. Este profissional, na essência, não é diferente do que fornece dicas ao mercado. Apenas atua no mercado dos produtos espirituais: como perito na especulação com as artes plásticas ou como juiz no mercado do entretenimento. A ilusão e a auto-ilusão de competência são intrínsecas ao exercício do metiê. A petulância com que é exercido na imprensa decorre da amena consciência de que o êxito do crítico, assim como o das obras, é um diploma conferido pelo mercado. Mas convenções bem sucedidas são por sua própria natureza ultrapassadas e então soa a hora em que o crítico não entende mais o que julga. É quando ele prazerosamente se deixa rebaixar aos papéis de propagandista do que permanece aferrado às convenções e de censor de tudo o que foge a elas, ainda mais feroz se a obra expuser alguma não-verdade.

Consuma-se então a antiga falta de caráter de um ofício que participa do amplo trabalho de tecer o véu das aparências.A crítica dialética empenha-se em confrontar metodicamente todas as manifestações da propaganda e da censura, em expressa aliança com a arte também dialética.

Iná Camargo Costa é professora de Teoria Literária na USP 
e autora de A Hora do Teatro Épico no BrasilFonte: O Sarrafo, n. 1, 2003.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Bateia Cultura: um balanço de 2010

Neste domingo, dia 10 de outubro, estreou o espetáculo Senhora dos Afogados, belíssima encenação de Ana Kfouri para texto de Nelson Rodrigues. A estreia deste trabalho veio coroar um belíssimo ano na Bateia Cultura.

Em janeiro e fevereiro iniciamos nossa parceria com a diretora e atriz Ana Kfouri, quando fizemos temporada do monólogo  A Inquietude, de Valère Novarina, com direção de Thierry Trémouroux, no Teatro Poeira. Nos meses de março e abril seguimos com o mesmo espetáculo para uma temporada de cinco semanas no SESC Avenida Paulista. Depois "A Inquietude" viajou para o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, em julho, para o FIT-BH em agosto e para o Porto Alegre em Cena em setembro.


Nos meses de fevereiro e março fizemos duas temporadas, a primeira no Drink Café e, a segunda, no Teatro Café Pequeno, do cantor, compositor e instrumentista Rômulo Gomes. Os shows contaram com diversas participações especiais, como Zé Renato, Roberto Menescal e Ricardo Silveira. Em outubro este show volta em única apresentação no Lapinha.

Em março realizamos o show Dez Cordas do Brasil, do maestro Jaime Alem, que marcou o lançamento do CD homônimo. Os shows aconteceram na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. No mês seguinte o mesmo show foi para o SESC Ginástico e, em agosto, para o Teatro Municipal de Niterói. As cantoras Rita Ribeiro e Nair Cândia e o músico Marco Lobo fizeram participações especiais. 

Em abril fizemos a produção local e divulgação do show do cantor brasileiro Gladston Galliza, que atualmente mora na Espanha. Os shows aconteceram no aconchegante Espaço Rio Carioca, em Laranjeiras.

Em maio a Bateia Cultura foi a responsável pela produção no Rio de Janeiro da temporada popular do musical Avenida Q, dirigido por Christina Trevisan, com direção original da dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller. A temporada que deveria ter cinco semanas acabou prorrogada por mais duas, devido ao enorme sucesso, que encheu o Teatro Carlos Gomes. E a partir de agosto Avenida Q seguiu turnê pelo Estado do Rio de Janeiro, também com produção da Bateia Cultura, por Niterói, Rio de Janeiro, Petrópolis, Volta Redonda e Angra dos Reis. Ainda para o final do ano mais cinco cidades do estado estão previstas.

Em junho a Bateia Cultura teve o prazer de produzir a vinda ao Rio de Janeiro do espetáculo Mané Gostoso, do Ballet Stagium, um dos principais grupos de dança do Brasil, que no ano que vem completa 40 anos. As apresentações aconteceram no Teatro Nelson Rodrigues.

Em julho estreou no Festival de Inverno do SESC Rio o espetáculo As Impostoras, texto inédito de Rodrigo de Roure escrito especialmente para as atrizes Ana Kfouri e Ana Abbott, dirigidas por Renato Carrera. As apresentações aconteceram em nos SESCs Nova Friburgo e Teresópolis.


E em outubro estreou o Senhora dos Afogados, que vem coroar 19 anos de estrada da Cia Teatral Movimento - CTM, grupo bravamente dirigido por Ana Kfouri. Aos atores Ana Abbott, Cris Larin, Fabiano Fernandes, Renato Carrera e Renato Livera, integrantes da CTM e do extinto grupo Alice 118, também dirigido por Ana Kfouri, juntaram-se mais 12 atores, 3 músicos e 12 figurantes, além de uma extensa equipe de criadores, produtores e técnicos, que numa comunhão jamais vista conseguiram levantar este grandioso e belíssimo espetáculo, no igualmente belíssimo Restaurante Albamar, na Praça XV.

Nós, da Bateia Cultura, queremos agradecer aos artistas aqui citados: ao Jaime Alem, à Ana Kfouri, ao Rômulo Gomes, ao Israel Dantas, à Marika Gidali e a todos do Ballet Stagium, ao Gladston Galliza, ao Thierry Trémouroux, ao Marcos Mendonça, Dalva Abrantes e Marcos Amazonas, da Bottega D'Arte, ao Valdir Archanjo e Bira Saide, da Asa Produções e a toda maravilhosa equipe do Avenida Q e a todos artistas, técnicos, criadores e produtores que passaram por todos esses trabalhos ao longo de 2010.

Para 2011, muitas novidades: novos shows do maestro Jaime Alem, novos trabalhos com a Ana Kfouri e Rômulo Gomes e projetos com o MPB4.

Agradecemos especialmente a você, que nos prestigia assistindo aos nossos trabalhos. E não deixe de assistir ao Senhora dos Afogados.

um abraço a todos,
Marcelo Cabanas
Camila Martins

sábado, 13 de março de 2010

A viola e o violeiro

texto de Aquiles Rique Reis* sobre o CD "Dez Cordas do Brasil", de Jaime Alem

    Dez Cordas do Brasil (lançamento do selo Repique Brasil, do cantor, instrumentista e arranjador Chico Adnet, ele que é também o produtor executivo do trabalho) é o primeiro CD instrumental solo do compositor, instrumentista e arranjador Jaime Alem.
   
    Nascido no interior paulista, Jaime conviveu com o sabor das coisas simples, das quais absorveu o saber profundo do que é ser de algum lugar, do que é pertencer a uma aldeia, nela se fortalecendo até partir, para botar a boca no mundo e o pé na estrada, e, enfim, perder-se até ganhar a vida.

    A viola de dez cordas tem o som do mundo. Nele, árabes e nordestinos, portugueses e mineiros têm o mesmo linguajar. Nele, o ponteado é do campo e é da cidade; suas modas vêm de raízes rasas e profundas; seu dedilhar traz o cateretê e o maxixe, a ciranda e o calango. Seu toque é inconfundível. Mas por vezes, para a ele agregar novas sonoridades, Jaime se valeu de uma viola de doze e de um violão de seis cordas de náilon.

    Para gravar seu disco, treze imagens vieram-lhe à cabeça e logo se materializaram na ponta dos dedos: uma barcaça desce um rio, na proa vislumbra-se um violeiro; o cheiro de um bolinho de arroz recheado com pedaços de toucinho atiça o desejo; dançarinos brincam na roda de uma ciranda em Parati; na Estação da Luz paulistana, violeiros esmoleiros, ao som de uma viola tosca, com apenas uma corda, passam o chapéu; um cheiro sugere Minas Gerais; a lembrança de um guitarrista; a mó macetando grãos; a fiandeira tecendo na roca; Minas e Pernambuco, uma só beleza; um violeiro brabo impõe respeito aos roqueiros de uma cidadezinha do interior; um berimbau tocado sobre a perna; uma Ave-Maria nascida ao acaso; um agalopado a tudo carrega para longe, sem pressa...

    E assim, feito parto natural, doloroso, rápido, comovente e tocante, as treze peças nasceram sob a vivacidade da emoção relembrada.

    O ponteando da viola faz de “Costeira do Rio” um símbolo do que virá; “Pracatugudum” é samba rural suingado e malicioso; “Moda de Uma Corda Só” tem rica linha melódica tocada em apenas uma corda e surpreende com a referência a “1x0”, o famoso choro de Pixinguinha; “Sonata do Agreste” é pungente em sua mistura de climas e andamentos; “Moenda” e “Romance da Moura”, plenas de improvisos e de contrapontos, se complementam, talvez pudessem ser uma única música; “Ave Maria das Violas” é cantada emocionadamente, com a letra original em latim, por Jaime Alem.

    Dez Cordas do Brasil confirma o quão viscerosa é a viola de dez cordas para Alem. Foi a partir do contato dela com seu peito, já dentro de um estúdio (onde entrou sem sequer uma composição pronta), que numa catarse musical-afetiva pôs-se a desarrumar emoções, saudades e lembranças. Desfragmentou-as a partir da estética sonora de um instrumento singular, tão familiar quanto íntimo. Assim foi criado o repertório que gravou, simples e instigante como um tênue fluxo de luz filtrado de uma nuvem escura no céu agreste.

*Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4


Diário do Comércio (SP), Meio Norte (Teresina), A Gazeta (Cuiabá), Jornal da Cidade (Poços de Caldas) e no Brazilian Voice (uma publicação voltada para os brasileiros residentes em toda costa leste dos EUA).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Fazer arte no Brasil, por Aquiles Reis, integrante do MPB4


Fazer arte no Brasil é correr atrás, matar e cozinhar um leão por minuto. Vivemos da arte de sobreviver. Criamos da lama. Plantamos no asfalto. Colhemos do sacrifício. Sonhamos para dormir. Levantamos para suar. Muitas vezes dormindo sem esperança e acordando cheio dela. Alimentando-nos de promessa. Buscando inspiração nos gabinetes públicos e privados. Patrocínio. Palavra mágica tão distante. Caçando ideias nas calçadas, nos bares - onde afogamos mágoas infinitas - , nos ônibus e metrô. Vendendo ideias àqueles que nem sempre entendem de sonhos. (...)
De traquinagem em traquinagem, essa legião de "arteiros" vai traçando o perfil das cidadãs e cidadãos que nascem nesse país.
(Aquiles Reis, cantor, integrante do MPB4)