segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Mário Sève e Cecilia Stanzione


Musicalmente necessário

        Logo que recebi Canción necesaria (Núcleo Contemporâneo), CD que reúne a cantora argentina Cecilia Stanzione e o compositor, arranjador e mago dos sopros Mário Sève, chamou-me atenção o título. Antes mesmo de rodar o disco pela primeira vez, pus-me a matutar sobre o seu significado.
        Que atributos a música deve ter para se fazer necessária? Será que é o momento pelo qual passamos que a torna importante a ponto de marcar uma etapa de nossa vida? Será que é uma harmonia bem trabalhada, um verso que diz o que não conseguimos dizer ou o som de um instrumento que atiçam a nossa emoção? Ou é o timbre de uma voz que se esgueira pelos poros, indo ao nosso âmago, atingindo o que temos de mais reservado, que faz uma canção ser, de fato, necessária?
        Uma música se faz imprescindível quando nos surpreende, quando nos pega de jeito, de uma forma para a qual não estamos preparados. Necessária é a música que se faz trilha sonora de um momento, tornando-se nossa parceira vida afora. Ela é necessária quando dela nos tornamos amantes confidentes, quando só ela nos desperta o choro ou a alegria. Necessária é a canção que nos faz reféns das garras do seu encantamento.
        Canción necesaria traz onze faixas de autoria de Cecilia e Mário: “Una Milonga” tem belíssimo arranjo de Gabriel Geszti, no qual pontificam o sax tenor de Sève, o violão e o baixolão de Rene Rossano, o cello de Lui Coimbra e o piano e o acordeon de Geszti. Com um singelo desenho melódico de seis notas (por vezes trocando a nota final) tocado pelo baixolão, ora só, ora com o piano, e que se repete desde a introdução até o final, vem a voz caliente de Cecilia Stanzione. Poderosamente afinada, criativamente emocionada, enquanto lhe dá ares épicos ela reforça a dor da canção, criando atmosfera lírica e sombria ao mesmo tempo. O diálogo da voz com o acordeon é rico em interpretações várias. O piano e o cello criam um módulo sobre o qual o arranjo flui como um rio tranquilo O sax se une a eles para, com a voz de Stanzione, encerrarem. Meu Deus, eis uma canção necessária.
        O violão toca desenho de simplicidade contagiante. A voz que dá início a “Justo Ahora” é de Ney Matogrosso – a levada da canção tem a cara das músicas em que Ney mais brilha, e ele não nega fogo. A puxada do baixolão carrega junto o sax e o violão. O arranjo de Mário Sève dá ainda mais sabor à música, ela que ganha muito mais peso quando Cecilia se junta a Ney, em preciso dueto com direito a vozes abertas. O intermezzo de sax e acordeon é papa fina. Com vocalises e o acordeon, vão ao final.
        Apenas a voz e o acordeon interpretam “Perfume de Violetas”. A simplicidade do arranjo de Gabriel Geszti permite que a voz de Cecilia ganhe profundidade. Carregando nos erres, ela se desvela em carinhosa e afinada interpretação, e seus agudos soam com a precisão de faca cortando manteiga.
        Canción necesaria é um trabalho que merece toda a atenção, pois se trata de um CD musicalmente necessário.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Coluna (reflexão) do Aquiles


Um pássaro chamado Sucesso

        Ele nasceu cego num ninho no forro de um velho teatro. Rejeitado por pais e que tais, foi abandonado para que definhasse sua solidão até que a morte viesse. A companhia teatral acompanhou o nascimento de sua plumagem e, mesmo sem compreender exatamente o que fazia ali aquele pássaro dia e noite, quase imóvel, no alto do madeirame que sustentava o cenário, aprendeu a conviver com ele. Era com se fizesse parte da montagem do espetáculo. Um ator a mais.
        O pássaro cego cresceu alimentando-se de palavra e música. Ousava voar quando se fazia o silêncio. Como um fantasma, conheceu cada canto do teatro. Deixava-se ficar por longo tempo nos camarins. As gavetas vazias, ah! Quanta magia naquela ausência de objetos. Gavetas prenhes de desejos, repletas de confidências não reveladas. Desejou morar numa delas. Sentindo o calor das luzes que emolduram o espelho, o pássaro cego tentava vislumbrar sua imagem. Em vão.
        Dia de estreia. “Lotação esgotada”, dizia a placa pendurada na bilheteria. A plateia rebuliça. A coxia treme. O pano sobe. As luzes acendem-se. O pano sobe, o espetáculo começa. Cai o pano.  Os aplausos vêm como uma chuva forte, torrencial. Imóvel, o pássaro vibra. O som das palmas entra por sua penugem e soma-se às palavras e músicas que lhe habitam o corpo.
        No proscênio o elenco agradece ao público. Acende-se um refletor em contraluz. Vislumbra-se uma sombra em silhueta. Num gesto teatral, a atriz principal olha para o alto. Todos acompanham seu movimento. Sua voz vem firme: “Pássaro que está prestes a morrer, para que tu não vás pagão eu te batizo. De hoje até tua morte inevitável e prematura, atenderás pelo nome de Sucesso.”
        Finda a temporada, novos teatros acolheriam a trupe que continuaria buscando fazer a emoção e o riso chegarem à plateia. Esta é a vida de quem vive para o teatro. Cada palavra, cada nota musical, é buscada dentro da alma e despejada sobre o espectador na esperança de vê-lo feliz.
        Pássaro espetáculo, Sucesso ama tanto o palco quanto ao ar que o sustenta em voo. Quando a cidade dorme, ele decola para sua missão: inocular o vírus do amor ao teatro nos que sonham. Movido por sua cegueira, ele “sente” quem devaneia. Em suas casas Sucesso pousa. Dá três batidas, como as de Molière, e as janelas abrem-se, como cortina do teatro.
        Iluminado na cegueira, Sucesso anuncia, em versos, os espetáculos que estão em cartaz na cidade. Envolto em panos teatrais, ele faz com que suas palavras invadam o coração daqueles que nas noites seguintes irão ao teatro. Sucesso voa, também, até a janela dos artistas que desafiam o tamanho das salas de espetáculos. Seja astro ou principiante, o pássaro invade seus corações, dando-lhes esperança e força.
        Sucesso volta ao teatro, adormece no camarim e sonha com Goethe, que recita a primeira frase de sua “Carta de Aprendizado”, escrita para o personagem Wilhelm Meister: "Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião (...)"
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
PS. Aguenta firme, Doutor Sócrates!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Antonio Adolfo


Os três mosqueteiros da música brasileira

            Guinga e Chico Buarque são compositores atemporais, suas músicas estão entre as que se perenizarão, cada vez mais, ao longo da história. Graças a seus talentos incontestes, são amados e tidos, pela grande maioria, como modelos musicais; mas são também contestados, há quem os veja como passadistas.
            O pianista e compositor Antonio Adolfo aderiu àqueles que distinguem a importância dos dois. E ao dedicar seu novo disco a uma parte de suas obras, Antonio avaliza seus talentos. Ao homenageá-los lançando Chora Baião (Antonio Adolfo Music), ele lança um novo olhar sobre eles. E para melhor assim ser, lá está sua musicalidade latente nas onze faixas do CD: cinco músicas do Guinga, sendo duas só dele e três em parcerias com Buarque, Celso Viáfora e Aldir Blanc; três do Chico e três do próprio Antonio Adolfo.
            Para realizar o trabalho, foi arregimentado um time de larga experiência e de alta qualidade: Leo Amuedo (guitarra), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria), Marcos Suzano (percussão) e Carol Saboya (vocais), além do irrepreensível piano do dono do pedaço. Ao privilegiar os ritmos que dão título ao CD (o choro e o baião – gêneros nos quais Guinga e Buarque são mestres), ele faz com que o conjunto tenha uma unidade que só faz aguçar o prazer de ouvi-lo.
            A guitarra de Amuedo é movida a concisão: os solos são exemplos do menos que é muito mais. Seuintermezzo em “Dá o Pé, Loro” (Guinga), modelo de como a técnica e a emoção podem e devem andar juntas, eleva-o a uma categoria ímpar em seu ofício.
            O baixo de Jorge Helder traz a segurança de que todo grupo carece para se fazer mais suingado e coeso. Basta ouvir “Morro Dois Irmãos” (Chico Buarque) e sacar a justeza da pegada do cara.
            A percussão de Marcos Suzano, principalmente quando ele está ao pandeiro, impregna de brasilidade até samba de roda composto e tocado por dinamarqueses (com todo o respeito a eles, claro!). Para não dizerem que minto, lá estão ele e o pandeiro, brilhantes, em “Di Menor” (Guinga e Celso Viáfora).
            A bateria de Rafael Barata soa com a precisão dos grandes bateristas. Sua leve levada nos pratos, sem deixar que o som se espalhe em demasia em “Gota D’Água” (Chico Buarque), atesta isso.
Carol Saboya participa cantando “Você, Você” (Guinga e Chico Buarque). Sua voz, de afinação cristalina, está bem avivada pelo piano paterno que a acompanha como se a levasse pela mão num passeio à beira-mar.
            E tem tudo isso e muito mais. Pule de dez, tinha tudo para dar certo um CD no qual Antonio Adolfo se dispôs a juntar seu talento ao de Chico e Guinga. Deu! Discaço! Pois, convenhamos, som contemporâneo é a melodia rica que emoldura a harmonia iluminada por versos e/ou por instrumentos; som moderno é o talento que se revitaliza a cada acorde. Modernos e contemporâneos são Chico, Guinga e Antonio, eles que estarão sempre um passo à frente da modernidade de fancaria, sempre um compasso adiante do modismo de mercado. 

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles, o CD de Delia Fischer


Sagração à música

A pianista, compositora, cantora e arranjadora Delia Fischer lançou Saudações Egberto (Sesc Rio). Um disco em louvor à música de Egberto Gismonti.
Privilegiando composições já conhecidas do compositor, instrumentais ou não, mas que sempre encantaram dadas suas admiráveis qualidades, Delia deu mostras de profunda sensibilidade. Seu piano e sua voz, ungidos pela tranquilidade que vem com a maturidade, acrescentam nuances outras ao repertório de um dos nossos mais instigantes músicos contemporâneos.
Compositor pleno de soluções da mais absoluta imprevisibilidade, bem que Egberto merecia ser revisitado por alguém com a disposição de repensá-lo e de dar à interpretação sua própria linguagem musical, livre de qualquer pré-conceito já cristalizado. E é exatamente isso que Delia traduz em cada uma das treze faixas escolhidas para seu álbum: um jeito só seu de fazer com que as canções de Egberto soem como o ar puro que se revigora após o temporal. Tudo isso, aliado à impecável técnica que Delia tem como pianista, dá a Saudações Egberto tamanha unidade que faz dele um disco de consistente encorpadura.
A contemporaneidade logo dá as caras com “O Sonho” (Gismonti). O arranjo é do “pirulito carijó” (quando algo era muito bom, dizia-se assim lá em Niterói). Moderno, refaz o caminho sonhado por Egberto. O teclado de Sacha Amback desconcerta, tal a sua capacidade de proporcionar ligação entre a percussão (intensa) de Naife Simões, o violino e o cellolino (com pizzicatos primorosos) de Pedro Mibielli, o baixo (seguro) de Pedro Guedes e a voz e o piano de Delia Fischer.
Segue-se “Lôro – Cor de Sol” (Gismonti e Eugenio Dale). Delicado, o violão começa. Delia inicia o canto. Seu piano se junta ao bandolim (Pedro Mibielli). A melodia de Egberto agradece o carinho. O intermezzo de piano tem a bateria em batida leve, mas firme. Ao voltar o canto, a caixa soa uma levada de maracatu. O suingue aumenta. O piano brilha; bandolim e violão também. A harmonia se mostra plena em sua concepção original, acrescida por criativas inserções.
O piano começa a versão instrumental de “Palhaço” (Gismonti e Geraldo Carneiro). A delicadeza está em cada tecla percutida por Delia. O violino e o flugelhorn (Naife Simões) criam sonoridade ímpar. Logo o violino faz belo solo. O piano o acompanha, até puxar para si o improviso. O piano sola. A sonoridade do flugel e do violino volta a protagonizar. O piano retoma, o violino se junta a ele. Volta o som do violino e do flugel... Meu Deus!
E tem ainda Egberto tocando violão de 10 cordas na sua “Saudações”; Paulinho Moska cantando com Delia “Um Outro Olhar – Pêndulo” (Gismonti e Ronaldo Bastos), ela que por sua vez vai de Fender Rhodes em “Dança das Cabeças” (Gismonti) e, só com o seu piano, canta “Auto-Retrato” (Gismonti e Geraldo Carneiro), um monumento à solidão, doce utopia.
Ao homenagear Egberto Gismonti, Delia Fischer consagra a música, faz dela um testemunho de fé no músico brasileiro.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles / Memórias, última parte


Fim de temporada no Leblon

Hoje eu acordei com a macaca; a cobra vai fumar; eu estou é com a cachorra. Para além de parecer palpite para terno de grupo no jogo do bicho, esse foi o sentimento que me assaltou quando abri os olhos.
Que manhã de sol, meu Deus! Domingo como há muito o Leblon não via. Nuvens batiam em retirada, empurradas por um final de sudoeste frio que a tudo limpa e regenera. Pulei da cama com entusiasmo quase juvenil para quem ainda carregava na memória os fatos lamentáveis do domingo anterior de sol no Leblon, após tanto tempo afastado.
Num arrepio, a cena dantesca de corpos seminus amontoados no calçadão da praia voltou a me assombrar. Nunca poderia imaginar que causaria aquele engavetamento erótico só porque, subitamente, me abaixei para amarrar o cadarço do tênis. Com pavor, revi a cena de arena de circo romano, quando ao apontar as Cagarras, acertei um direto no queixo de um lutador de jiu-jitsu que passava acompanhado do seu dogue alemão. Scud, assim chamavam o meu quase carrasco, o que quase me levou pro solo e me fez mulher, como diria o sábio-erótico Wando.
Abri os olhos disposto a esquecer qualquer desventura que pudesse macular aquele azul suave que descia à terra. Nem mesmo a lembrança incômoda daquele encontrão desajeitado que tive de aplicar num poodle, que quase o jogou no mar e me tirou o bom humor. Fomos.
Vejo que Chico Buarque caminha rapidamente em nossa direção. Pronto, pensei, mais um que vai passar batido... O cumprimento vem acompanhado de um sorriso largo. Olho para minha mulher, sua cara é de incredulidade. Sorrio como quem diz: "Viu só?"
Seguimos felizes. Estava linda a minha mulher iluminada pelo sol. Foi quando uma lufada de vento carregou-lhe o chapéu de palha molenga que a protegia. Disposto a impedir que aquilo pudesse atrapalhar nossa dia, saí desembestado atrás. Fintas, volteios, subidas bruscas, descidas em espiral, ziguezague pra cá, ziguezague pra lá e eu, já tonto, perseguindo o chapéu de palha molenga da minha mulher. Por entre os carros, dentro d’água, no meio do vôlei. Meu Deus! Estava tomando um baile do chapéu de palha da minha mulher molenga, ou melhor, do chapéu molenga da mulher de palha... Xiii!
Mas aqui já é a entrada do Túnel Rebouças? O chapéu entrou. "Táxi, siga aquele chapéu!", ordenei. Já sem fôlego, percebi que àquela altura o helicóptero da Rede Globo mandava imagens da "obstinada perseguição" para todo o Brasil.
As pessoas vaiavam a cada drible que eu levava. Surdo pelo cansaço, eu ainda conseguia ouvir sons distantes: "Esse velho vai morrer" e "Calma, coroa". Linha Vermelha, e o chapéu de palha molenga da minha mulher acabando comigo. Chego à Pavuna: Via Dutra – São Paulo a 426 quilômetros. Agora não tem mais volta, pego essa droga de chapéu nem que seja lá no Paraíso.
Pronto, estou em casa. O chapéu, amarrado ao pé da mesa, parece que ri. "Alô! Nilza, pegue a primeira ponte aérea e volte para casa, tá? Estou te esperando. Um beijo".

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles / Mais memórias

Um falso paulista na ilha do Leblon

Com o sábado acabando, fui dormir animado. Amanhã será o grande dia. Após um tempão, estou de volta ao Leblon, ilha que tem, à frente, o mar; à esquerda, o canal do Jardim de Alá; à direita, o canal da Rua Visconde de Albuquerque e atrás, a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Tentando aparentar modéstia, fui logo prevenindo minha companheira: “Olha, Nilza, não sei se teremos tranquilidade na caminhada que faremos amanhã pelo calçadão. Provavelmente a cada passo serei abordado por velhos conhecidos, alguns poucos e bons amigos que cultivei na época em que eu fui morador do Leblon. Peço-lhe um pouco de paciência e compreensão, afinal, há tempos sem passear pela praia numa manhã de domingo, terei que atender a todos”. Dito isso, apaguei a luz e não dormi. Como dormir imaginando a cena gloriosa que eu já antevia para o dia seguinte?
Acordei com o sol entrando pelo quarto. Levantei-me discretamente pensando: “Teremos um longo dia pela frente”. Mas não custa nada disfarçar o paulistês da minha linguagem. Já pensou entrar num bar, o Bracarense, por exemplo, e sapecar: “Três pastel e um chopps, faz favor, belo”? Não tenho nada a esconder, mas nesse primeiro domingo seria legal não dar muita bandeira.
Paramentado, segui em direção ao calçadão, palco da minha volta triunfal ao convívio com os cariocas do Leblon. Levando Nilza pela mão, respirei fundo e pisei nas pedras portuguesas como quem pisa num tapete de memórias: “Vamos andar até o canal do Jardim de Alá”, sugeri. Trinta metros de caminhada, se tanto, o cadarço do meu tênis novo desamarra. Displicentemente, como convém a um típico morador do Leblon, me abaixo para amarrá-lo. Pra quê, rapaz! Uma senhora que vinha logo atrás de mim quase montou nas minhas costas. O casal atrás da senhora trançou as pernas no pescoço da coroa e assim, sucessivamente, corpos seminus e bronzeados foram se embolando numa cena dantesca e imoral que se estendeu até a Avenida Niemeyer. Não fiquei pra ver, mas ouvi dizer que os bombeiros vieram com um carro pipa para separar os corpos engavetados.
Depois de muito procurar, encontro a Nilza aos prantos. Para acalmá-la, aponto na direção das ilhas Cagarras. Estranho... Não me lembrava de que no meio do calçadão tinha um muro. Que muro coisa nenhuma! Ao esticar o braço, encaixei um direto na orelha amarrotada de tanto esfregar no tatame de um garotão que levava um dogue alemão pela coleira. A galera chegou junto. “Beleza, Scud, bota o paulista pra dormir.” Que apelido singelo, o do cara, não? “Scud”! Um fofo. “Aí, Isshcud, leva o velhote pro chão e finaliza ele.” Me senti numa arena com o povo pedindo meu sangue. O tal do “Scud”, sensível e generoso, ainda meio zonzo, decretou: “Deixa o coroa ir embora, esse cara não dá nem pra saída.” Ô homem bom, esse “Scud”.
Chamei minha companheira e segui caminho. Prudentemente, ela perguntou: “Vamos voltar pra casa?” De jeito nenhum! E os meus conhecidos? Seguimos caminho.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Coluna do Aquiles / Memórias

O dia em que o passado voltou
Cai uma garoa fina. Minha nau capitânia desliza cuidadosamente rumo a uma terra distante. Velas ao vento em direção ao descobrimento do presente desconhecido. A neblina desce como uma cortina pesada sobre o passado que carrego como um fardo. Não estou nem alegre nem triste, apenas navego. Não estou cansado nem desperto, apenas sigo. Levo na mala as recordações e uns poucos sonhos. Carrego o medo de monstros que nunca vi, mas sei que existem.
Após mais de um quarto de século, as correntes me arrastam para uma ilha que já conheci bem. Lá, nessa pequena ilha, já fui de casa. Hoje, lá, não guardo mais tesouros, apenas memórias. Nessa ilha, hoje não tenho mais amigos, apenas conhecidos. Gente que fala uma língua que quase não entendo, linguagem que expressa o que não sinto mais, e que talvez nunca tenha sentido.
A nau busca o destino. Sinto frio. Um frio na alma, dentro de um corpo que traz marcas de tatuagens de serpentes e corações de mães. Alma que transborda emoções que não se contentam em estar ali, querem voar.
A placa presa no bico de uma impávida gaivota anuncia: “Leblon à esquerda”. Instintivamente giro o leme para onde a seta aponta. Lá é a minha ilha, penso, depois de tanto tempo nela aportarei outra vez. À frente, o mar. À esquerda, o canal do Jardim de Alá. À direita, o canal da Rua Visconde de Albuquerque. Atrás, a lagoa Rodrigo de Freitas. No meio, um dos meus passados. E lá nesse meio um filho, o mais velho.         
Recebo-o na sala do apartamento onde passarei os próximos trinta dias. Ele olha ao redor e, súbito, seus olhos estancam na garrafa de Fernet Branca, minha bebida amarga, forte e favorita desde sempre. “Pai, essa garrafa já estava aqui ou foi você quem trouxe? Eu me lembro desse desenho no rótulo, dessa águia. Puxa vida, pai, já faz tanto tempo, como é que eu ainda me lembro?” O que responder? Não tem resposta não, filho. Você não esqueceu. Só isso. Quando deixei a ilha, filho, você era bem pequeno, passeávamos na calçada, íamos à praia, você e sua camisa do Flamengo, lembra? E o dia em que você corria sozinho pela beira d`água e uma onda o derrubou, lembra? Lá atrás, tentei voar para alcançá-lo. Seu pai não sabe voar, filho. Quando deixei essa ilha, filho, você me acompanhava por botecos que me serviam a cerveja que prenunciava a partida.
Hoje fomos beber chope no seu bar, servido pelo seu garçom. Andamos pelas ruas da sua ilha, filho. As noites do Leblon, filho, agora são suas. Você as conquistou com sua maioridade e sabedoria.
Leve-me por aí, mostre-me o que já conheci, lembre-me do que nunca esqueci, faça-me voltar o tempo de quando nos separamos, diga-me que nada foi em vão. Enquanto minha nau estiver aportada nessa ilha, filho, será como a volta do passado ao seu porto. Serei, por um breve tempo, um ilhéu antigo. Falarei sua língua, sentirei seu tempo passar e me permitirei lembranças boas e más. Serão as lembranças que levarei quando eu voltar a partir.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4